REFUGIADOS: QUANTAS ATITUDES INTOLERÁVEIS

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Recentemente, o jornal britânico The Independent questionava: “Se imagens tão fortes quanto a de um menino sírio morto, arrastado pelas ondas, não mudarem a atitude da Europa frente aos refugiados, o que poderá fazê-lo?” Foi uma “foto para calar o mundo”, replicava o italiano La Repubblica.”Parte do álbum migratório da infâmia”; concluia envergonhado o espanhol El Mundo.

Mas apesar da foto, pouco (para não dizer nada) mudou. Numa declaração de boas intenções, o Conselho Europeu, orgão executivo da União Europeia, conclamou os países membros a dar asilo aos 120 mil refugiados, a maioria sirios, que se encontram no continente. França e Alemanha deram eco a essa posição, propondo a imposição do acolhimento obrigatório das vítimas dos conflitos por todos os países do bloco. Ora, as regras européias descartam a obrigatoriedade.

Vários governos, sobretudo do leste europeu, já responderam negativamente, a começar pela Polônia. Essa mesma Polônia que durante a Segunda Guerra fechou os olhos para não ver o que se passava do outro lado da cerca de Auschwitz, apesar do cheio nauseabundo de corpos cremados.

Outros países chegaram ao cúmulo de responder à iniciativa franco-alemã argumentando que o problema da migração em massa nao é europeu, e sim alemão. Autoridades do leste europeu comentaram que os refugiados querem ir para a Alemanha e que portanto Angela Merkel que desse um jeito para resolver a questão. O Reino Unido, através do primeiro-ministro David Cameron, propôs que a Europa enviasse esses miseráveis de volta aos seus países de origem, rasgando a Convenção de Genebra.

A atitude da Europa não vai mudar, apesar das imagens pavorosas de Aylan Kurdi, 3 anos de idade, vestindo uma camiseta vermelha e uma bermuda azul, com o rosto na areia, seu corpinho estirado, morto.

O ser humano é o que é. E pelo jeito não há como mudá-lo, nem sequer melhorá-lo.

No mesmo dia em que a imprensa do mundo inteiro publicava a foto do corpo inerte de Aylan, a Hungria mostrava do que somos feitos. Depois de impedir o acesso de imigrantes à principal estação de trem da capital, Budapeste, durante dois dias, as autoridades húngaras permitiram que os imigrantes, exaustos e confusos, embarcassem em um trem para o oeste. Milhares se espremeram nas composições, agarrando-se às portas e empurrando os filhos pelas janelas, feito gado, como nos comboios nazistas. Mas, em vez de seguir para a fronteira austríaca, como havia sido anunciado, o trem parou na cidade de Bicske, a oeste de Budapeste, onde a Hungria tem um centro de recepção (o termo mais adequado seria detenção) de imigrantes, e a polícia ordenou que todos desembarcassem. Policiais esvaziaram um dos vagões, enquanto nos outros cinco os refugiados, expostos ao calor, gritavam “Campo não! Campo não!”. Uma família – homem, mulher e uma criança de colo – jogaram-se nos trilhos. Foram arrancados dali à força pelos policiais.

O governo húngaro, de extrema-direita, viu-se no direito de enganar os pobre coitados. Não, a Europa não vai mudar. Nos restam as palavras de Abdullah Kurdi, pai de Aylan: “As minhas crianças eram as mais belas do mundo, maravilhosas. Me acordavam de manhã para brincar com elas, mas agora não estão mais aqui. Tudo o que quero é estar ao lado do túmulo da minha esposa e dos meus filhos”

milton1Correspondente em Paris há 35 anos, Milton Blay, autor do livro “Direto de Paris, Coq au Vin com Feijoada” pode ser ouvido em boletins diários nas rádios BandNews FM e Bandeirantes AM. Além do Por Dentro da Mídia escreve no www.pegapelorabo.com.br