OS NOSSOS SONHOS

ENTRE OS MEIOS E OS FINS

“Nada é tão nosso como os nossos sonhos”. Esta frase de Nietzche retrata bem como venho me relacionando com a vida. Sempre coloquei meus sonhos como um objetivo a ser alcançado em minhas ações como cidadão e jornalista. Tenho sofrido um bocado por conta disso. Nem sempre nossos sonhos são realizados e, quando são, logo surgem outros a serem alcançados.

A minha geração lutou pela anistia e assim que os exilados voltaram, o sonho passou a ser a democracia. Depois do voto veio a Constituinte e o sonho de eleger políticos preocupados com o combate à miséria. Nos últimos anos, o Brasil reduziu a pobreza extrema e a fome a menos de um sétimo do nível de 1990, passando de 25,5% para 3,5% em 2012.  O analfabetismo, que no início dos anos 2000 atingia quase 26 milhões de brasileiros, caiu pela metade em 2013. Uma nova classe média surgiu no país, reduzindo significativamente a exclusão social. O combate ao racismo e a xenofobia tiveram lugar de destaque na nossa sociedade. Leis foram criadas para punir o preconceito de cor e de gênero. Cotas garantiram um número mínimo de vagas para os negros nas universidades e no serviço publico.

Nunca em nossa história Republicana tivemos tanta liberdade para discutir e propor soluções para os nossos dilemas. Na área econômica passamos por duas grandes crises como se fossem marolinhas e nos firmamos como a sétima economia do planeta. De devedor passamos a ser credor do FMI. Foram tempos de euforia em que reportagens na imprensa internacional chegaram a colocar na capa de uma de suas mais importantes revistas o Cristo Redentor subindo aos céus como um foguete.

Uma euforia que nada tinha a ver com o pessimismo reinante na nossa mídia tradicional. Em mais de 30 anos como jornalista, não vi nada parecido. Ao contrário, como repórter da televisão, inclusive da Globo, assisti de perto os apoios que a emissora e os principais veículos de comunicação deram  às campanhas eleitorais de Tancredo, Collor, Fernando Henrique e aos Planos Cruzado I e II, Collor e Real.  Talvez para compensar as distorções constantes da imprensa, o maior comunicador do país, o ex-presidente Lula, passou a exagerar nas tintas ao falar do sucesso de seu governo. Como estratégia foi vitorioso, garantiu três eleições presidenciais, mas alimentou a guerra da informação dificultando para seus próprios apoiadores na sociedade a percepção do Brasil real.

Todos foram pegos de surpresa, imprensa e governo, quando milhares de manifestantes foram às ruas em 2013 cobrando dos governantes melhores condições de vida nas grandes metrópoles. Como assim? O desemprego batendo no seu patamar mais baixo, 4,5%, a inflação sob controle, milhares de jovens tendo acesso às universidades, investimentos em saúde, habitação e a luz chegando em quase todos os lares, o que estava errado? Por que saímos de um sonho de verão direto para um pesadelo de uma noite fria de inverno?

Arrisco a dizer que um dos nossos sonhos foi realizado, o da redução da desigualdade, mas outro acaba de se colocar no horizonte. Seria um erro imaginar que os que subiram na pirâmide ficariam eternamente gratos pela melhoria de vida. Eles foram explorados por séculos e agora querem mais. As demandas agora são outras. Como disse Mannheim: “Os grupos dominantes podem estar tão ligados, em seu pensamento, aos interesses decorrentes de uma situação que se tornam simplesmente incapazes de perceber certos fatos que lhes solapariam o senso de domínio. Em certas situações, o inconsciente coletivo de determinados grupos obscurece o verdadeiro estado da sociedade.”

Acho que estamos vivendo no Brasil um desses momentos. Cabe a nós, jornalistas e intelectuais com diferentes origens de classe e com uma formação em ciências humanas, fazer uma síntese das duas posições em conflito, com independência e imparcialidade. O Brasil merece e precisa de uma imprensa comprometida com a cidadania. A boa informação permite ao cidadão condições de compreender melhor seu presente e sonhar com seu futuro. No fim dos anos noventa, pouco antes de falecer, Darcy Ribeiro falou sobre seus sonhos: “Temos que inventar um futuro, inventar um projeto próprio de nação, esse é o grande desafio de nós brasileiros. Nosso povo necessita de um pensamento utópico. Que os filósofos pensem nessa utopia.”

Meu sobrinho, Paulo Henrique, filósofo e professor da Pedagogia da USP, neto e filho de Marxistas, encontrou na militância católica da Igreja da Libertação seu caminho para ajudar o próximo e mudar a realidade de pessoas pobres da periferia. Uma maneira bonita de sonhar um mundo melhor numa era em que o coletivo deu lugar à individualidade e a principal utopia é o consumo exacerbado.

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7 comentários

  1. Carmen Cardin abril 29, 2015 7:01 pm 

    Entre os Meios e os Fins, careceríamos de Princípios?
    Nietzche, Mannheim, Marx, Darcy, Planos Cruzados por um instintivo toque de dedos, mas que se perderam no abissal labirinto das mentes e classes (pre) dominantes?
    Nesse emaranhado, vejo que o herói real é o Paulo Henrique que, ” de tudo um pouco” saiu ao brilhantismo intelecto do tio.
    Bem haja e parabéns, Florestan!
    Carmen Cardin

    • Por Dentro da Mídia maio 12, 2015 6:22 am 

      obrigada pela manifestação.

    • Por Dentro da Mídia maio 12, 2015 6:26 am 

      O Por Dentro da Mídia é feito para você. Expressão e opinião.

  2. Adriana Schreiber Motta Nicolau (G_His 2S14 S2) abril 30, 2015 12:14 am 

    Muito bom.
    Nem sempre concordo com sua fala. Mas admiro.
    Abraço

    • Por Dentro da Mídia maio 12, 2015 6:25 am 

      Adriana continue conosco. Deixe as suas opiniões.

  3. Leila Castro abril 30, 2015 8:23 am 

    Assim c/ suas palavras vc fala por milhares de Brasileiros como eu.Obrigada

    • Por Dentro da Mídia maio 12, 2015 6:24 am 

      Continue conosco e use o espaço para mais opiniões.

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