OS 30 ANOS DA CAMPANHA DAS DIRETAS JÁ. UMA HISTORIA FEITA DE PAIXÕES, SONHOS e TRAIÇÕES

Foto 1986, durante campanha pelas Diretas Já. Florestan Fernandes ( pai) ,Florestan Fernandes Júnior, Caio Prado e a esposa e Carlito Maia.

Foto em 1986, durante campanha pelas Diretas Já. Florestan Fernandes ( pai), Florestan Fernandes Júnior, Caio Prado e a esposa e Carlito Maia.

A última vez que estive com Caio Prado Júnior foi no primeiro grande comício pelas ” Diretas Já “, que ocorreu no dia  27 de novembro de 1983 na praça em frente ao Estádio do Pacaembu. Foi organizado pelos sindicatos e pelo PT. Reuniu cerca de 15 mil pessoas e, apesar do clima descontraído e familiar, havia um grande receio de que o ato fosse reprimido pelas forças do governo do general Figueiredo. Mas tudo transcorreu em paz. Assisti aos discursos de Lula e de lideranças sindicais da parte superior do jardim lateral da praça, ao lado de meu pai, do Caio Prado Jr e do saudoso Carlito Maia. Não sei porque esse comício é desprezado pelos historiadores. Ele foi importantíssimo como termômetro de mobilização da sociedade civil e também para saber a temperatura dos setores mais retrógrados da ditadura.

Nesse dia, o senador Fernando Henrique, na época no PMDB, foi um dos poucos políticos de grande partido a aparecer. Mesmo assim foi a pedido do senador Teotônio Vilela, que estava doente e escreveu uma mensagem para ser lida no palanque. O ato da praça Charles Miller acabou se transformando num sinal de alerta para as oposições tradicionais. Ou eles entravam na campanha ou ficariam a reboque do jovem e pequeno Partido dos Trabalhadores. O governador Franco Montoro corajosamente decidiu patrocinar um comício suprapartidário para janeiro de 84. 

Praça da Sé / São Paulo -SP. Comício Diretas Já

Praça da Sé / São Paulo -SP. Comício Diretas Já (1984)

Colocou em risco sua relação com o general presidente e, no dia do aniversário da cidade junto com Lula, Brizola, Ulisses e lideres sindicais, arrastou para a Praça da Sé mais de 100 mil pessoas que não paravam de gritar Diretas Já. Foi um dia memorável, destes que a gente não esquece mais. Foram 19 anos com o grito contido na garganta. Finalmente chegou o dia que Chico Buarque e a nação esperava: “Num tempo, página infeliz da nossa história. Passagem desbotada na memória, das nossas novas gerações. Dormia, a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações. Seus filhos, erravam cegos pelo continente. Levavam pedras feito penitentes erguendo estranhas catedrais. E Um dia, afinal tinham direito a uma alegria fugaz uma ofegante epidemia que se chamava carnaval”.

João Figueiredo ( o último presidente da ditadura militar no Brasil) e Roberto Marinho ( TV Globo)

João Figueiredo ( o último presidente da ditadura militar no Brasil) e Roberto Marinho ( TV Globo)

Eu era repórter da TV Globo neste dia, e voltei da praça da apoteose democrática  pouco antes do JN entrar no ar. A notícia foi dada ao vivo, mas sem repórter e manipulada, certamente para atender um pedido do general presidente João Figueiredo, dava conta que a festa era apenas um ato pelo aniversário da cidade. Ao censurarem a notícia na principal emissora do país, o regime militar dava um sinal claro que não iria aceitar em hipótese nenhuma uma eleição direta que pudesse levar a vitória de Leonel Brizola. Tancredo Neve, raposa velha, sentiu o cheiro da carniça que começava a feder. Durante toda a campanha das diretas manteve encontros reservados com chefes militares tentando construir o nome dele como alternativa para evitar o impasse institucional que o país caminharia com a derrota no plenário da emenda das Diretas Já. E a festa que começou tão bonita num sábado de Pacaembu sem futebol, mas ao lado de brasileiros como Caio Prado, Carlito Maia e Florestan Fernandes, terminou numa eleição indireta onde o presidente morre antes da posse e o vice,       ex-líder dos ditadores no senado, assumiria a presidência num governo que se arrastou por cinco anos.   

fernandes-1-264x3003É a coluna “De tudo um Pouco”, no POR DENTRO DA MÍDIA, com Florestan Fernandes Júnior

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Florestan Fernandes Júnior

Jornalista com ampla experiência em telejornalismo com passagens pelas principais redações e emissoras do País. Desde 2008 é gerente-executivo de jornalismo da TV Brasil e âncora do Repórter Brasil da emissora.