O PODER DA ARTE

O neurologista e escritor Oliver Sacks escreveu diversas obras interessantes, combinando seu conhecimento médico com sua sensibilidade.  Um dos textos que mais me marcou foi O Marinheiro Perdido: Sacks descreve seu convívio com um paciente identificado como “Jimmie G.”, de 49 anos, que havia sido internado em 1975 no local onde o autor trabalhava.
O paciente achava estar vivendo em 1945 e ter cerca de 19 anos.  Ele vivia numa espécie de eterno “agora”, porque não conseguia reter lembranças por mais de alguns minutos.  Quando Sacks mostrou-lhe um espelho e Jimmie viu seu próprio rosto – o rosto de um homem de quase 50 anos – ele entrou em pânico porque não podia compreender o que havia acontecido.  Quando o médico saiu da sala e voltou depois de alguns instantes, foi recebido pelo paciente como se eles nunca tivessem se encontrado.
Jimmie sofria de um caso grave de Síndrome de Korsakov: um problema ligado à carência de vitamina B1 que tem a amnésia como um de seus sintomas.  O curioso é que, embora ele achasse estar em 1945, não havia perdido a memória naquele ano: seus registros na Marinha indicam que ele serviu normalmente até sua baixa em 1965.  Foi somente quando surgiu a síndrome é que todas as suas lembranças posteriores a 1945 se perderam.
De toda forma, ao ser examinado pelo Dr. Sacks, Jimmie mostrou-se atento, observador e com bom raciocínio, capaz de resolver problemas de solução rápida. Se exigissem uma resolução mais longa, ele simplesmente esquecia o que estava fazendo.
Uma coisa parecia ter um efeito especial sobre o paciente: a contemplação da natureza, de obras de arte, e a participação nas missas celebradas na capela da clínica.  Nessas situações que tocavam seu senso estético e seu sentimento de espiritualidade, ele se mostrava calmo, em paz.
Não tenho o que falar sobre a espiritualidade, mas a natureza e a arte, por si, já me parecem mais do que suficientes para arrebatar a pessoa sensível e faze-la entrar em contato consigo mesma e com o mundo à sua volta.  A arte é um passaporte que nos leva aonde quisermos e, principalmente, para dentro de nós.
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