O MURO DE LAMENTAÇÕES DA IMPRENSA E DO PÚBLICO

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O jornalismo pode ser tudo, menos um muro de lamentações. Pode ser duro na crítica, incisivo e latente sem tréguas, até visceral, desde que com bom senso. Mas tenho visto colegas, programas e emissoras naquele clima de o mundo acabou, de criticar por criticar e medir sua atuação pelos outros que também criticam apenas, sem ir a fundo no problema, sem contextualizar, sem buscar o contraditório. Daí, temos tido dois tipos de jornalistas, jornalismo e veículos: os pagãos vaidosos no muro das lamentações com milhões de selfies para ganhar espaço na corrida das vaidades ou,   permitam-me o estrangeirismo, os do tipo blasé, de leve, achando que jornalismo é só ouvir os dois lados, que podem estar mentindo, sem intervir, sem inquirir o entrevistado ou os responsáveis. Neste último caso, a intervenção precisa de inteligência, coragem e muito preparo, coisa que as empresas têm aberto mão na hora de contratar profissionais. Sem gente capacitada nas redações, fazem o que fazem.

E quando ousam, acham que ousadia é contratar jornalistas e analistas, personagens de si próprios, que falam, gritam, reclamam, usam da ironia em excesso e que, de tanto insistirem no volume da voz e nos adjetivos destrutivos, arrogantes e até grosseiros, parecem convencer. Ajudados por aquele ar professoral, então, você acredita ter encontrado o salvador da pátria. O problema maior disso tudo é que como estão apenas interpretando personagens, não vivem a realidade. Eles normalmente não acreditam no que falam, não se compadecem com as vítimas do descalabro que denunciam, não mexem no próprio comportamento. Ou seja, não são de verdade. Vivem pela régua da melhor atuação no “lamentômetro”. E assim que fazem “A” denúncia e logo querem saber dos colegas que estão ao lado se botaram pra quebrar.

Segundos depois da crítica dura, o ar de indignação se esvai e nada mudará nem no problema nem no comportamento do reclamão. É cena. Jogo de cena. A piada, a graça e o gracejo com o companheiro do lado já tomam o espaço rapidamente. E tudo isso porque “o Brasil é assim mesmo” e dois elogios de alguém ao lado ou de ouvintes ingênuos, que também só esperam pela virulência do comentarista para suprir seu desejo de vingança, porque continuarão trafegando pelo acostamento ou jogando lixo na rua, bastam para manter essa sociedade viciada em não querer enfrentar a realidade porque reclamar já seria a prova de cidadania completa. Não é, sabemos os realistas que não.

Há um terceiro tipo de veículo, jornalista e jornalismo. Os de chapa branca, os tendenciosos, porque muito bem pagos (não confunda com quem tem opinião formada para qualquer lado. Esses acreditam no que dizem, embora lhe provoquem divergências extremas) e os omissos. Neste último caso, a empresa não é séria, isso não é jornalismo e os jornalistas nem podem se chamar assim. Então não vou deixar muito tempo a eles.

Escrevo isso sob o risco da iminente crítica de colegas incomodados com o próprio espelho que esse texto os obriga a olhar. É problema deles, não me importo, mas a manutenção de comportamento equivocado prejudica uma sociedade inteira. E isso sim me importa e deveria importar a todos.

Escrevo também sabendo da crítica de que eu estaria aliviando para os políticos e governos ruins ao reclamar de quem critica. Bobagem. Até porque estou reclamando por uma crítica e um jornalismo sérios e com intenção de provocar mudanças, coisa que o do tipo “muro de lamentação” não faz. Afinal, o muro de lamentações original continua lá, não se move – porque é um muro – e se você vai se lamentar quer dizer que não conseguiu o que pretendia nem sua estratégia deu certo. Ou seja, preferiu o fácil de lamentar do que a coragem e a dificuldade de continuar tentando.

O que pretendo aqui está muito longe de dar aulas de jornalismo, com escolas e professores cada dia mais inseguros e despreparados, coisa notadamente clara quando se vê que as exceções é que são formadas por jovens meninos e meninas com talento e preparo para se tornarem jornalistas de verdade. A regra, que é a média, chega ruim, deslumbrada e arrogante.

O que pretendo, sim, é denunciar a situação na condição simples de apenas alguém que se dá o trabalho, a dor, o dever e o direito de pensar. Daí, sinto a obrigação de avisar meus conterrâneos brasileiros que eles são vítimas duas vezes. Primeiramente da enganação advinda de medidas ruins e da má política de governos e políticos que assola o país e constrange a cidadania brasileira. E, depois, do jornalismo, das empresas jornalísticas e dos jornalistas dos três tipos que listei porque não fazem parte de solução alguma.
É isso.

E é por isso que não cesso a minha busca pessoal em trabalhos jornalísticos e projetos de filmes e documentários, séries, etc, nos quais acredito poder provocar mudanças reais de comportamento.
Talvez erre, acerte, precise corrigir ou aprimorar, mas estou e sempre estarei no campo das tentativas que fica muito longe do muro das lamentações.

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