O FILHO DO DRAGÃO

Na segunda metade do Século XIX, o ator Henry Irving era uma das maiores celebridades de Londres e, possivelmente, de toda a Inglaterra.  Ele tinha seu próprio teatro  – o Lyceum, que existe até hoje – e suas peças eram assistidas até mesmo pela Rainha Vitória.  Apesar de toda essa fama, poucas pessoas lembram dele fora de seu país.

Por outro lado, havia uma pessoa muito ligada a Irving e que, embora não fosse uma celebridade naquele tempo, hoje é sempre lembrada: um irlandês com formação em Direito e Matemática, que foi o dedicado assistente do ator por 27 anos, além de responsável pela administração do teatro e escritor ocasional: Bram Stoker.  Sua obra prima foi, é claro, Drácula: livro adaptado inúmeras vezes para o teatro, cinema e revistas em quadrinhos.

Stoker sabia muito pouco sobre o Drácula histórico – Vlad III, príncipe da Valáquia.  O nome “Drácula”, por sinal, tem uma origem interessante: o pai de Vlad III era Vlad II, conhecido por Dracul (dragão) por ser membro da Ordem de Cavalaria que levava esse nome.  Nada mais justo do que o filho ficar conhecido como Dracula (literalmente: o filho do dragão).   De toda forma, o escritor irlandês tinha pouco ou nenhum interesse por esses personagens históricos.   Quando enviou sua obra para os editores, após sete anos de trabalho, o título era “The Un-Dead”, e o vampiro chamava-se Wampyr.   Não se sabe ao certo quem sugeriu a modificação do nome do personagem e da obra, mas aconteceu no período entre a entrega dos originais e a publicação.  Supõe-se que o autor tenha encontrado o nome Drácula num livro sobre a Valáquia e a Moldávia que havia na biblioteca de Withby e que, segundo registros, foi diversas vezes consultado por ele.  Talvez a mudança tenha sido uma sugestão do editor, mas não há como saber.

Seja como for, Stoker criou algo duradouro.  O livro é relançado até hoje, inclusive em edições comentadas, dedicadas aos entusiastas e pesquisadores que querem refletir sobre os mínimos detalhes da obra.  Uma das melhores é aquela organizada por Clive Leatherdale: Dracula Unearthed, que traz 3.400 notas explicativas além do texto integral.  Eu tenho e recomendo.

Enfim, sob a superfície de uma simples história de horror, há algo mais que vem mexendo com as pessoas até hoje.  Pode ser o velho confronto entre Bem e Mal ou algo muito mais complexo.  Sem dúvida, o livro tem significados diferentes para cada pessoa, e essa riqueza de possibilidades é, em si, uma qualidade invejável.  Fica, aqui, a dica: que tal, numa noite desse inverno, folhear esse clássico?

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Bram Stoker em 1906.  Crédito: fotógrafo desconhecido.  Imagem de domínio comum.

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