MODELO DE EDUCAÇÃO. COMO LIDAR COM DESAFIOS. ESTÁ NA HORA DA AULA COM PROFESSOR CLEBER

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Como produzir um novo modelo de educação? Como lidar com desafios aparentemente visíveis, porém não compreendidos? Quem aqui lendo essa coluna acredita no diálogo? Estive na Escola Prefeito Mendes de Morais na Ilha do Governador, bairro da cidade do Rio de Janeiro para conversar com alunos e professores sobre os caminhos que a educação deve tomar após uma verdadeira revolução que vem ocorrendo nas dependência desta e de quase uma centena de outras escolas estaduais do Rio. Pra quem não sabe os professores da rede entraram em greve no dia 2 de março de 2016 e seguem até a data deste texto.
Algumas semanas após os alunos do Mendes ocuparam a escola, num movimento para chamar à atenção das autoridades políticas, dos professores e dos próprios pais. Quem acompanha a coluna sabe que no balanço de 2015 eu já escrevia que o maior aprendizado para o avanço da educação no Brasil estaria justamente no projeto conjunto professores-alunos-comunidade, todos integrados, todos participando dos eventos e decisões, decidindo no uso de verbas, priorizando esta ou aquela área, enfim, fazendo a gestão participativa. Eis aí um grande problema. Hoje, muitas direções escolares preocupam- se apenas com a gestão financeira. Alunos são negligenciados porque aos olhos do governo apenas a “prestação de contas” faz um bom gestor. E é simples, basta que esse diretor mande todos os relatórios, notas fiscais, aplique provas externas para a geração de dados que visam a quantidade e não a qualidade do ensino, sendo excluídos os diversos fatores humanos que formam o processo educativo. Os diretores tem verdadeiro horror em ouvir os alunos, a formação de grêmios é vista como ameaça, o questionamento é impossível.
O pioneirismo do Mendes chama a atenção de todos de que é possível gerir um prédio em conjunto. Os alunos usam quase plenamente a instalação, exceto as áreas administrativas e o laboratório de ciências (que não era usado por ter virado um depósito de caríssimos livros que não foram distribuídos aos alunos), são divididos em comissões para a organização de segurança, limpeza, alimentação, atividades educacionais, debates, artes e esportes. Os pais ajudam e circulam na escola, professores grevistas e de outras redes participam como convidados, oferecem oficinas, e todos os alunos podem ter acesso ao formato de educação pós industrial, de acordo com a necessidade de cada ser humano.
Cada aluno de forma construtivista vai moldando o seu aprendizado, saindo da obviedade do currículo. O atual modelo educacional que já atravessa três séculos foi moldado de forma militar, onde os alunos são ensinados a competir, a ter obediência e não por acaso partem como soldados para a guerra por seus objetivos ou mesmo privilégios. Escolas cumprem a mesma rotina de fábricas, ou mesmo presídios, usam uniformes, obedecem aos sinais e sirenes, são fechadas por altos muros e grades, são ilhas dentro das comunidades. É a reprodução de uma política de ditadura que visa formar pessoas interessantes ao sistema, consumistas, não questionadoras, adestradas. Após essas ocupações, vejo que a principal reivindicação é muito simples, mas não vem sendo praticada pela secretaria de educação. Os alunos só desejam ser ouvidos. E esse impasse se arrasta porque não existe capacidade de um órgão burocrata compartilhar desse simples gesto. Essa ruptura de paradigma seria para os burocratas uma transgressão, buscar o novo é proibido para quem apenas se preocupa com manter a estrutura, os cargos e os privilégios. Escolas não são iguais. Cada uma tem uma pauta, um motivo para reivindicar e tornar melhor a convivência. Não podemos viver como ilhas, precisamos pontes de conhecimento e humanização no processo educativo.
Os indivíduos tem tempos diferentes de aprendizado e a compreensão destes fatores fazem o coletivo mais forte. O papel da educação é dar ferramentas para o desenvolvimento, e no modelo atual, isso é quase impossível. Então é hora de mudar. Ouvir é a principal arma para essa revolução, e são os jovens que exigem isso de todos nós. Uma nova educação surgirá. Eu sou otimista nisso. Os jovens são os protagonistas nessa mudança e a escola não pode mais ignorar essa demanda. Viva a comunidade escolar! Eu acredito no diálogo.
cleber