LEIA UMA MENSAGEM, DE UM VELHO AMIGO, DANDO RAZÃO AO EX-PRESIDENTE

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A publicação recente da coluna de agosto no Pega Pelo Rabo e reproduzida pelo Por Dentro da Mídia em que eu dizia estar indignado com as palavras odiosas de Lula, comparando o antipetismo à perseguição dos judeus pelos nazistas, me valeu uma mensagem, de um velho amigo, dando razão ao ex-presidente.

Ele dizia:

“Você mora fora e não sabe como estão as coisas por aqui. Às vezes me sinto um judeu na Alemanha nazista. Há uma intolerância absurda da classe média alta, uma ditadura do judiciário. Ser minimamente de esquerda no Brasil se tornou insuportável. Sou a favor da alternância no poder. Alternar com quem? Falta liderança popular na oposição e isso permite o aparecimento de caras perigosos como o Cunha. Ele poderá se transformar no futuro líder da nação. Como se diz ‘líder’ em alemão mesmo?”

A insuportável ironia do amigo mostra a que ponto chegou o país, conduzido por manifestações ultrajantes, exageros absurdos à total perda de controle; como bem comentou o professor da Sorbonne, Stephane Monclaire.

Nem preciso dizer que o argumento da distância é falacioso, apesar de reconhecer que os 11 mil quilômetros que nos separam me dá a vantagem (não negligenciável) de ver as coisas com um mínimo de recuo e, consequentemente, de falar menos besteira.

Em contrapartida, o discurso da banalização do nazismo não é inocente e não deve ser subestimado.

Respondi ao amigo que nos anos que antecederam a 2° Guerra, na Polônia, a irmã de minha avó materna, que queria muito estudar, conseguiu burlar a administração e inscrever na carteira de identidade PROSTITUTA, como profissão. Assim, ela pode continuar os estudos. Como judia não tinha direito; como puta, sim.

É hora de começar a colocar as coisas nos seus devidos lugares. É preciso lembrar que os nazistas mataram seis milhões de judeus, além de ciganos, comunistas, pessoas com necessidades especiais. 6 milhões, dentre os quais a irmã de minha avó, que acabou na câmara de gás.

Aqui na França, banalizar o holocausto, o maior genocídio da história da humanidade, é crime. Jean-Marie Le Pen, fundador do partido neofascista Front National, foi condenado por muito menos do que disse Lula (que já escorregou algumas vezes no antissemitismo).

Os petistas têm todo o direito de se achar injustiçados, incompreendidos, mas que o façam sem perder as estribeiras e apelar para a intolerância, para a agressão.
Meu amigo, apesar de todo o sentimento de perseguição, que eu acredito seja sincero, você não tem o direito de se sentir um judeu na Alemanha nazista. Nem você nem ninguém. O Brasil não é Auschwitz.

Shaná tová

Abaixo está o texto para você conferir

Direto de Paris para o Pega pelo Rado e POR DENTRO DA MÍDIA

Confesso que ando preocupado – Ler as palavras de Lula comparando o antipetismo à perseguição aos judeus pelos nazistas não deveria me sensibilizar, pois afinal sei que o ex-presidente é capaz de tudo, tudo mesmo, para convencer os seus interlocutores na defesa da causa própria. Em outubro do ano passado, ele já havia dito que o PSDB agredia os petistas como os nazistas. É sabido que Lula não tem nenhum comprometimento com a verdade. O que me assusta, isto sim, é a passividade da comunidade judaica. Incompreensível!

A palavra, toda palavra, tem um peso. É graças a ela que nos comunicamos, que interagimos, que tentamos nos entender. Quando a palavra perde seu peso especifico, perdemos os limites, perdemos os valores, já não conseguimos mais nos entender. E é isso que está acontecendo numa sociedade brasileira caótica.

Não se trata aqui de PT nem de PMDB ou de PSDB. Ver sob esse ângulo seria extremamente redutor. A crise é profunda, passa pela economia, pela política, e desemboca no sistema de valores.

Preocupo-me quando leio o bloguista judeu Marcio Tenenbaum: “Nos últimos meses vimos agressões contra ex-companheiros que participaram dos governos Lula e Dilma, simplesmente por que eles são petistas e participaram daqueles governos, à semelhança dos nazistas que tentaram exterminar os judeus por que simplesmente eram judeus e culpados pela infelicidade alemã.”

Preocupo-me ainda mais quando um jornalista outrora exemplar – Mino Carta – comenta que o Brasil se tornou um país fascista. Ele, que é originário da Itália e deveria saber o que diz…

Preocupa-me quando o inteligente e fino Luís Fernando Veríssimo, que nesta baderna tupiniquim perdeu a graça, escorrega na referência nazista e se questiona sob o ponto de ruptura que os judeus deviam ter pressentido e que hoje, de maneira ainda difusa, ameaça os céus brasileiros. ” Em que ponto o inimaginável se tornaria imaginável?”; questiona o escritor. Veríssimo tem a honestidade de confessar: “A preocupação em reconhecer o ponto pode levar a paralelos exagerados, até beirando o ridículo.”

Preocupo-me porque não conseguimos mais nos entender, nem sequer nos ouvir. Quando as palavras não tem mais o mesmo valor para uns e para outros, é porque a sociedade está esgarçada, corroída. É necessário e urgente que voltemos a falar a mesma língua. Mesmo que seja para falar de nossos desacordos.