JE NE SUIS PAS CHARLIE

Nada justifica a desproporcional reação dos assassinos terroristas que mataram 12 pessoas no ato contra o jornal francês Charlie Hebdo, autor de charges consideradas ofensivas ao Islã e a outras religiões.
Nada.
Mas eu não sou Charlie.
Nada pode justificar que alguém se ache no direito de fuzilar, matar, atentar contra a vida, agredir alguém ou algo por mera ou insuportável discordância.
Isso é evidente e nem preciso retomar aqui minha imensurável crença na liberdade de expressão.
O terrorismo de que o Charlie Hebdo foi vítima é uma aberração em si. Os terroristas oficiais de governos e seitas ou extraoficiais de milícias ou grupos de fanáticos são os algozes desproporcionais dessa incapacidade de muita gente no mundo de conviver com o contraditório e discutir as diferenças com as ferramentas da sociedade civilizada.
Nada pode justificar o atentado contra jornalistas que estavam em pleno exercício da profissão.
Mas eu não sou Charlie.
Isso não diminui em nada meu repúdio ao terror, meu desejo imenso pela caça aos terroristas, meu empenho incansável para assegurar o trabalho da imprensa que deve existir livre e independente.
Sou um jornalista. Não é preciso ser para se expor nessa hora contra o covarde ataque a jornalistas dentro de uma redação desarmados e sem condição de defesa.
Mas eu não sou Charlie.
Sei que a hashtag em tom afirmativo, ao contrário da minha, virou febre, até compreendo jornalistas franceses exibindo cartazes com a frase em primeira pessoa, dada a proximidade geográfica e sentimental com o caso, que nessa hora o slogan se transformou em ato de solidariedade, no poder do símbolo, etc, mas é preciso, quem puder,     distanciar-se e usar a dor para lutar contra o terror e o temor de onde isso pode nos levar.
Não há mais por onde eu explicar o tanto que condeno o ato terrorista contra o jornal francês que chocou o mundo. Mas mesmo assegurando o direito de livre expressão do Charlie Hebdo e de seus profissionais, é preciso discutir o mau gosto de boa parte das charges e a motivação agressiva delas que veio dos cartunistas.
Não é razoável e necessário debater e compreender isso tudo?
De novo, para que os precipitados e os terroristas travestidos de libertários não se animem em me criticar, insisto: nada justifica uma ação homicida de fanáticos com fuzis contra chargistas ou textos do maior mau gosto do mundo, como eram algumas das charges. Nada justifica.
Isso tudo só obriga os bons e que continuam vivos a discutir até onde é razoável ir na crítica, na piada, na graça sem graça para discutir as grandes e graves distorções humanas e na eficácia disso tudo.
O humor inteligente, mesmo que ferino, sempre foi um aliado do jornalismo. O humor acéfalo ou apenas estúpido e grosseiro, não.
Protestos com humor ou sem precisam provocar mudanças sob o risco de apenas atenderem à vaidade intelectual de seus autores.
Em nome das vítimas, é bom que se avance no debate, sem medo de ir adiante ou repensar. De discutir os outros e discutir a si próprios.
De um jeito torto, no meu entender, é o que os indomados cartunistas do Charlie Hebdo tentavam fazer com a provocação crua, nua e despudorada de suas charges de gosto duvidoso.
A intolerância costuma ser uma mão de duas vias. E são os nossos demônios que as controlam.
Por isso, Je ne suis pas Charlie.
Mas estou e continuarei ao lado das vítimas.
Doze pessoas, entre elas dois policiais, morreram nesta quarta-feira em um ataque com fuzis de assalto e lança-foguetes contra a sede da revista satírica Charlie Hebdo, localizada em Paris, informaram fontes ligadas ao caso.

Doze pessoas, entre elas dois policiais, morreram nesta quarta-feira em um ataque com fuzis de assalto e lança-foguetes contra a sede da revista satírica Charlie Hebdo, localizada em Paris, informaram fontes ligadas ao caso.

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