E-BOOK: É CLARO QUE VOCÊ VAI ADERIR!

DickTracy

Quem viveu mais de seis décadas, como eu – ou um pouco menos, talvez –, experimentou as transformações naturais que a Vida proporciona. Os cabelos caem, a barriga pode ficar flácida, os óculos se fazem necessários, mas tudo contrabalançado com uma maior experiência para enfrentar eventuais vicissitudes.

Foi a Revolução Industrial que trouxe para o Homem o primeiro grande pacote de mudanças transformadoras, proporcionando uma inexorável melhoria na qualidade de vida. Alimentos, roupas, transporte, indústria, casa, tudo foi melhorando.

RevolucaoIndustrial

Nos anos 1950, com a invenção dos transístores e a miniaturização dos elementos eletrônicos, a escalada cresceu geometricamente, permitindo equipamentos cada vez menores e potentes. O tempo dos rádios de válvula, lindos de ver, mas que consumiam muito, estava acabando.

 

RadioAntigo

Vieram os rádios de pilha, e a transmissão da comunicação ganhava proporções que assustava os mais tradicionalistas. Logo, o cérebro eletrônico, mais tarde conhecido como computador, começou a detonar a grande mudança.

RadioSpIca

A partir dele, tudo começou a mudar muito rápido. A tecnologia tomou um ritmo galopante.  Cidadãos mais conscientes acusavam a indústria de promover a “obsolescência planejada”, obrigando todos a comprarem um produto cada vez mais atualizado e potente, mais moderno, mais rápido, mais tudo, sob o risco de ficar pra trás, atrasado.

Isso vem acontecendo agora, freneticamente, com os smartphones, cujo ritmo de inovação ultrapassa até as mentes mais libertárias. Não é por acaso que computadores e tablets começam a ficar para trás na corrida tecnológica, trocados por equipamentos menores e muito mais potentes, que permitem comunicação pessoal e profissional, trabalho e entretenimento em megadoses de terabytes.

No momento em que escrevo, chega a notícia de que o mercado de PCs registrou, em 2015, a maior queda da história. E vai ser irresistivelmente assim, daqui pra frente, não tenho dúvidas. As redes sociais são acessadas prioritariamente em dispositivos móveis, principalmente nos smartphones, em detrimento de equipamentos fixos, como o computador, e até dos tablets.

IPhone6

Eu, que sou do tempo do relógio do Dick Tracy, sempre acho que vem mais, muito mais, por aí, cada vez mais, sem parar, os confins da Via Láctea serão o limite.

CDs e rádio, a grande mudança

Napster

O primeiro mercado a indicar que as coisas iriam mudar com a internet foi a indústria fonográfica. O Napster indicou o caminho. Os donos do mercado preferiram o confronto e perderam a queda-de-braço. Hoje, os artistas sabem que é preciso criar novas formas de faturar, porque “ninguém mais compra CD”.

O rádio, o velho rádio, chegou ao Brasil em 1922 durante a Exposição do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, transmitindo o discurso do Presidente Epitácio Pessoa (imagem abaixo) a um seleto grupo de privilegiados. Um ano depois, pelas mãos do professor Edgard Roquete-Pinto, era inaugurada a primeira estação de rádio no Brasil, a PRA-2 – Sociedade Rádio do Rio de Janeiro.

PrimeiraTransmissao

O rádio, grande responsável pela divulgação do futebol, por ondas hertzianas, foi quem melhor se apropriou das vantagens da internet para crescer. Hoje, o rádio, o velho rádio, se comunica por imagens e vídeo, em tempo real, pelo WhatsApp e celular, direto com os clientes, ampliando seu campo de ação.

Os efeitos na indústria editorial

Desde que criei a www.livrosdefutebol.com – sabem os amigos mais próximos e quem me ouviu falar a respeito, defendo que o livros eletrônicos – os e-books – são o caminho natural da indústria editorial.

Kindle

Fáceis de comprar, portar e ler em leitores (e-readers) cada vez melhores, menores, leves e mais potentes e baratos, os e-books vão inevitavelmente conquistar quem gosta de ler (não esquecer que e-books podem ser lidos em computadores, notebooks, tablets e smartphones, com aplicativos especiais, sem requisitar a compra obrigatória de um leitor).

Sem considerar que caminhamos para uma situação em que árvores serão produtos tratados com o merecido respeito, e sua celulose não estará disponível e sobrando para o mercado editorial. Talvez seja a era dos livros de papel de PET, essa praga plástica que infelicita e empesteia o meio ambiente e que, quem sabe, pode prestar um serviço adicional.

lixopet

Com um Kindle (meu reader favorito, da Amazon) nas mãos, você carrega não apenas o livro que esteja lendo, mas a sua biblioteca inteira (até 3.000 livros), tudo o que gosta e precisa ler. E-books são mais baratos, não cobram frete, não demoram a chegar.

Pelo lado da indústria, são mais baratos de produzir, porque não é preciso investir na impressão e esperar que as livrarias se dignem a comprar, no máximo consignar, seu produto e expor nas estantes à espera dos leitores-compradores.

A parte que cabe às livrarias

A verdade é que as livrarias se tornaram marketplace para algumas editoras. Viraram, em grande parte, vitrines e compram, pontualmente, um a um, os livros que vendem em suas lojas físicas e virtuais. Não há editora média e pequena que possa suportar essa situação de obscurantismo cultural.

Livrarias

Algumas chegam a negociar seus espaços publicitários como se fossem supermercados, e expõe os preços: ponta de gôndola, frente de loja, destaque aqui, destaque ali. Expõem livros de colorir, autoajuda, best-sellers, tablebooks, mas vai procurar poesia, novos autores, futebol…

Recentemente, a representante de uma rede de livrarias ligou para a assistente comercial de uma distribuidora, com quem mantenho relações de trabalho e amizade, pedindo um exemplar de um determinado título.

Você leu direito: pediu um único, mero exemplar de um título. Receberia o livro em dois dias, entregaria o cliente que o encomendou, recebia – no máximo – no cartão de crédito –, pagaria à distribuidora em noventa dias, que pagaria à editora em outros 60/90… Até chegar ao autor, os Reais já teriam ido pro c*. Junto com o humor e o bolso do editor.

Minha amiga, consciente da sua função de vendedora do peixe das editoras que a mantêm sob contrato, ofereceu então o cardápio da editora à qual pertencia o solitário título consultado para compra: “– Não, não, só quero mesmo esse livro que encomendei”. Minha amiga, com toda razão, declinou da venda. Fez muito bem, porque não dá pra viver dessa maneira.

Livrarias não são supermercados

Livreiros deveriam entender sua parte no processo. Têm uma importante função social, educacional e cultural. Trabalham com consignação, não investem um centavo na produção editorial, vendem livros como quem vende qualquer produto.

Mas supermercados não recebem encomendas para entregar depois ao comprador. Quando chego ao mercado, a banana está lá, esperando minha avaliação… e compra. Têm o produto na prateleira – ou não. Abastecem-se, expõem seus produtos, vendem para os clientes, remuneram a cadeia produtiva etc.

Por que com a livraria não é assim?

Os riscos de lermos tão pouco

Estamos correndo um grave risco de imbecilização do povo brasileiro. A oferta cultural nas TVs abertas é de baixíssima qualidade. A música está jabaticamente nas mãos de meia dúzia, que não têm vergonha de misturar estilos e abrir mão de tradições, desde que seja para faturar. Não entendo que algum sambista de uma escola se arvore a fazer o samba de outra escola, com quem não tem ligações embrionárias, apenas pela possibilidade do lucro fácil.

Sem esquecer que ficamos à mercê de uma manipulação de mercado, eles querendo nos impingir o que lhes interessa. Madrinhas de baterias louras de olhos azuis? Nenhuma negra como musa do Carnaval carioca? O velho sambista de qualidade sem espaço no programa de domingo? Mentiras nos grandes conglomerados de mídia, à revelia dos interesses da população?

Escolas públicas de péssima qualidade, com professores mal remunerados, só interessam a quem deseja manter a população à margem do processo decisório. Lembro, com tristeza, a entrevista do professor Darcy Ribeiro, que Deus o tenha, explicando os CIEPs, que concebeu:

DarcyRibeiro

“Com essa garotada entrando de manhã na escola, estudando, almoçando, descansando, fazendo o dever de casa com orientação da professora, depois fazendo Educação Física, lanchando e indo pra casa, ao final do dia, de banho tomado, nunca teríamos nossas crianças nas ruas ou à mercê dos traficantes. Elas teriam esperança e futuro. Leriam livros, seriam estimulados a isso.”

Mas há sempre alguém que, contrapondo-se à facilidade de disseminação e dos e-books, há de dizer que “nada como o cheirinho do livro”. A esses, eu respondo:

Meu caro: com a evolução que estamos experimentando, você não acha que, muito em breve, teremos smartphones capazes de borrifar em nossos rostos os aromas do que estamos lendo? Cheirinho de peixe frito, uma taça de Carménère, Chanel nº 5?

(Quando disse isso ao meu amigo vascaíno Alexandre Mesquita, iconoclasta de carteirinha, autor de ótimos livros de futebol, ele comemorou as possíveis novidades olfativas do canal Sexy Hot).

Mas antes que você soletre itaquequecetuba ou pingamonhangaba, teremos smartphones oferecendo e-books com cheirinho de um livro novo.

Duvida? Dick Tracy não duvidaria.

Um abraço,
Cesar Oliveira
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