CRÔNICA DE UMA CATÁSTROFE ANUNCIADA, DIRETO DE PARIS, COM MILTON BLAY

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Crônica de uma catástrofe anunciada – Assim poderia se resumir, em uma frase…, a retomada da violência em Israel, provavelmente a 3° intifada.

Só os ingênuos poderiam acreditar – e alguns até mesmo apostar – no status quo. Não houve surpresa. A explosão era previsível. A grande questão é que ninguém hoje no mundo se interessa pelo problema israelo-palestino, nem os Estados Unidos, nem a Europa, nem muito menos os países árabes. Os próprios palestinos, sobretudo os jovens de Jerusalém Oriental, se desiludiram ao ponto de não acreditar mais na política. O Hamas e a Autoridade Palestina estão totalmente ultrapassados, imersos em suas próprias disputas e divisões. Ninguém aponta um caminho possível. A palavra esperança foi apagada do dicionário.

Neste clima, bastaram os rumores sobre a mudança do estatuto da esplanada da Mesquita Al Aqsa, hoje administrada pelos palestinos, para provocar a explosão. Desta vez com um agravante: o conflito religioso.

Se as duas primeiras intifadas eram, de certa maneira, controláveis por Israel, esta é muito mais complexa. Desta vez o inimigo está por todo o canto, na virada da esquina, no ponto de ônibus, na praça pública. O inimigo é praticamente irreconhecível, como mostra o recente incidente de Haifa, onde um judeu apunhalou um outro judeu, suspeito porque tinha aparência árabe. Hoje, não há lideranças nem organização, o que faz com que as informações colhidas pelos agentes do Mossad, em Gaza e Ramala, não sirvam para nada. O inimigo é o lobo solitário, desesperado diante da falta de perspectiva.

A desesperança é tal que qualquer alusão ao diálogo soa falso, como se de qualquer maneira não se pudesse chegar a lugar algum. Dominique Moisi, politólogo do Instituto Francês de Relações Internacionais, especialista da região, se pergunta se os acordos de Oslo não passaram de um sonho absurdo. Sonho que se tornou pesadelo com o assassinato de Itzhak Rabin, com a ascensão de Ariel Sharon, que apostou todas as fichas no status quo e construiu muros para que nada mudasse, e o desaparecimento de Iasser Arafat, que apesar de descartar um Estado palestino por meio da negociação, era o único interlocutor possível.

A solução não virá de israelenses, nem de palestinos, nem da comunidade internacional. É o vazio absoluto.

A “solução” de dois Estados fracassou, ninguém mais acredita nessa possibilidade, que parecia ser a única viável: trocar os territórios ocupados pela paz.

A hipótese de um Estado binacional também abortou, pois significa que os judeus aceitem viver numa terra em que seriam minoria.

Há, enfim, alguns poucos que defendem a tese de uma espécie de Confederação, voltada para a economia, incluindo a Jordânia, mas que no contexto atual não passa de um mero exercício surreal.

Para os palestinos, a criação de Israel ainda hoje é vista como o último ato do processo de colonização no mundo; para os israelenses, se trata do reconhecimento tardio de um direito nacional. As posições são irreconciliáveis.

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Correspondente em Paris há 35 anos, Milton Blay, autor do livro “Direto de Paris, Coq au Vin com Feijoada” pode ser ouvido em boletins diários nas rádios BandNews FM,  Bandeirantes AM e BandNews TV.