CORREIOS – DISTRIBUIDOR OFICIAL DO LIVRO PELO BRASIL: UMA PROPOSTA DA LIVROSDEFUTEBOL.COM

“Oh! bendito o que semeia livros,

livros à mancheia

e manda o povo pensar”

(Castro Alves)

Correios-Distribuidor-Oficial

Os índices de leitura no Brasil tangem o pré-sal. Bem os atestam os lamentáveis resultados das pesquisas “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro (saiba mais aqui), já na sua terceira edição.

Há, nesses números, o triste resultado de uma troca entre a má educação, professores mal preparados e pagos, escolas públicas de qualidade duvidosa – em todos os ângulos pelos quais analisemos.

Parece-me que há certo interesse em manter as coisas assim. Afinal, um povo desinformado e culturalmente pobre é fácil massa de manobra de políticos chegados a um populismo. A epígrafe do poeta Antônio Frederico de Castro Alves (1847–1871) não está na cabeça desse texto à toa.

A mais recente tentativa de escolarização de qualidade partiu da trinca Darcy Ribeiro (1922–1997), Oscar Niemeyer (1907–2012) e Leonel Brizola (1922–2004), com o projeto do Sambódromo do Rio de Janeiro (inaugurado em 1984), criado para ter, embaixo das arquibancadas, no período escolar, dezenas e dezenas de salas de aula. Chamado a colaborar, o genial arquiteto criou estruturas modulares que permitia levantar escolas em tempo recorde. Tudo com a sua marca registrada, as curvas.

Nem é bom lembrar, mas não faltaram críticos (quase escrevi “idiotas”, mas achei melhor maneirar) para falar mal do projeto. Pode-se pensar o que quiser dessas críticas. Mas, com certeza, elas fazem parte do lamentável esmagamento a que as classes pobres são relegadas – Maria Antonieta e seus brioches que o digam. Basta ver o que aconteceu com elas: viraram arquibancadas e camarotes.

O espaço deixado pela demolição da antiga fábrica da Cia. Cervejaria Brahma, na Marquês de Sapucaí, seria uma oportunidade de quase dobrar o número de salas de aula. Do outro lado, mais próximo do Viaduto Doutor Agra, o espaço das antigas salas serve para guardar bagulhos e entulhos, e material de propaganda dos patrocinadores do Carnaval. Afinal, entre o pão e o circo, a educação que se dane.

Além das escolas no Sambódromo, o espraiamento dos Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs (implantados por dois governos de Leonel Brizola, de 1983 a 1994) pelo Estado do Rio de Janeiro poderia, como percebia o visionário Darcy, proporcionar educação e saúde em doses cavalares.

Afinal, dizia ele, uma criança que entra na escola às sete da manhã, estuda, almoça, descansa, faz o dever de casa com a orientação da professora, pratica educação física e esportes, toma banho, troca de roupa, lancha e volta pra casa no final do dia, não vai pra rua fazer besteira. Estará “morto”, inalcançável para prazeres ruins e a tentadora oferta de trabalho como avião e empinador de pipas dos traficantes.

Mais ainda, dizia o Mestre:

– Quando essa “negrada” [expressão que ele amava utilizar] estiver educada, nunca mais elege esses políticos que estão aí.

E reside aí, justamente, quem sabe, o motivo pelo qual proporcionar educação e cultura não faz parte, a sério, dos programas de Governo que temos em nosso País. Vereadores, deputados, senadores, ministros, governantes, juízes, todos numa “corrente pra trás”.

Junte-se a isso os potentados de mídia, desejosos de fazer o que o dono do poder (qualquer que seja ele, qualquer que seja o seu partido) precisar para se manter lá em cima e distribuir as mamatas. É uma conspiração perversa de lesa-pátria.

ENFIM, UMA INICIATIVA PRA VER SE A COISA MELHORA

De 1º. a 4 de março, acontece na Caixa Cultural (Av. Almirante Barroso, 25, no Centro do Rio de Janeiro), o ciclo “Literatura, cultura e consumo: o valor da letra”, para debater a grave crise de leitura no Brasil, essa que o Ministro Juca Ferreira já considerou “uma vergonha”.

Vão debater desde a crítica literária até o papel das bibliotecas públicas. Gente importante vai participar do debate, coordenado pelas professoras, tais como Alberto Mussa, Mànya Millen, Antônio Carlos Secchin, Elisa Campos Machado e outros. Para saber mais, clique aqui.

Estou tentando convencer o meu amigo Alberto Mussa a apresentar, em meu nome, no evento a proposta de que trata este texto.

LIVROS, LIVROS À MANCHEIA

Distribuir livros pelo Brasil não é tarefa fácil. As dimensões continentais precisariam ser vencidas com uma malha ferroviária que negligenciamos, uma malha rodoviária em petição de miséria, uma infraestrutura aeroportuária de dar dó, custos altíssimos em transporte aéreo etc.

Proponho que você faça uma experiência: empacote um livro, como se fosse mandar de presente para um amigo querido. Use os cuidados que o objeto requer: plástico bolha, generosa, mas não exageradamente, para proteger. Depois, papel kraft grosso para embalar. Feche tudo fita adesiva grossa e transparente. Subscrite com cuidado. Não se esqueça de deixar espaço para as etiquetas ou selos dos Correios. Do outro lado, coloque o remetente. Não se esqueça de escrever: “livros, manipule com cuidado”. Leve numa agencia dos Correios e apresente ao funcionário. E veja a cara que ele vai fazer. A pergunta é inevitável:

– O que é isso?

Confesso que o meu lado negro já tive vontade de responder, malcriadamente:

– Um objeto do qual você faz pouco uso (e pouco caso, poderia acrescentar).

Ao ouvir a palavra “livro”, quase sempre sobrevém a ordem:

– Tem que deixar uma ponta aberta para os Correios verem que é um livro!

Parênteses Um: Ora, ora, logo os Correios, uma das estatais mais corruptas da nossa máquina administrativa, desconfiando do contribuinte… Heitor Beltrão (1916-1997) deve revirar na tumba quando isso acontece.

Parênteses Dois: para quem não lembra, ou não sabe, Hélio Marcos Pena Beltrão foi ministro da Desburocratização (1979–1983), no governo de João Figueiredo (1918–1999). A Lei que ele tentou implantar dizia que ao cidadão era dado, até prova em contrário, o direito de ser aceito pela máquina estatal como falando a verdade (em documentos e atestados, por exemplo), coisa que acabaria com os cartórios, a mais antiga e poderosa mamata brasileira. “Se ele mentir – dizia o Ministro – a Lei atuará sobre ele”.

Os cartórios venceram, o Ministro caiu.

Mas se eu justamente caprichei no embrulho para proteger o precioso conteúdo, por que deveria provar aos Correios que o livro que estou enviando é mesmo um livro. Se não for assim identificado nas muitas máquinas de controle que eles têm, que eu seja punido. Caso contrário, que deixei o livro seguir em paz. Afinal, duvido que meu pacote de livros seja tratado, no caminho das minhas mãos até o destinatário, com o cuidado que eu lhe proporcionaria.

Além do mais, mandar um livro pelo Brasil afora é caro, muito caro. Já contei, mas posso repetir rapidamente (perdoem-me os poucos leitores assíduos das minhas escrevinhações) que constatei que:

  • Mandar um livro de Norte a Sul do País pode custar tão ou mais caro que o próprio livro
  • Distribuir livros pelos Correios, como se faz hoje, é comercialmente inviável

RECUPERANDO A CREDIBILIDADE

Houve um tempo em que os Correios eram uma das empresas mais admiradas pelos brasileiros. Lembro-me de uma pesquisa publicada numa revista semanal em que a estatal de correios e telégrafos foi considera a mais querida pela população. (Infelizmente, hoje nem o Google é capaz de recuperar essa informação, tantas aprontaram por lá).

Eram outros tempos, sem internet, em que ainda se escreviam cartas e telegramas. Talvez o recém-falecido Umberto Eco, crítico feroz da rede mundial de computadores, tivesse razão quando dizia que as redes sociais geraram “uma legião de idiotas sem medo de emitir opiniões cretinas sobre qualquer coisa” (Que eu não seja um deles, Senhor!…).

Em troca de muitos imbróglios e roubalheiras, os Correios abandonaram a sua destinação principal, virando uma empresa comercial como outra qualquer. Prova disso é o empenho com que a estatal concorre no mercado de courier; o Sedex é um serviço absurdamente caro, e cujos prazos de entrega vêm aumentando, fazendo-o perder o sentido. O dinheiro estatal, num tremendo valhacouto de maracutaias, contra FedEx, DHL etc. Não deveria; sua destinação não é essa.

Os Correios poderiam recuperar sua credibilidade junto à população se deixassem de ser cabide de emprego de políticos inescrupulosos, se modernizassem. Há algum tempo, promoveu-se uma verdadeira perseguição aos agentes franquiados, exigindo mundos e fundos, lojas enormes, estacionamento na porta e muitas outras exigências que as próprias agencias oficiais nunca ofereciam.

Hoje, das 12 mil 600 lojas dos Correios espalhadas pelo País, apenas 1 mil 500 são franquias. Apesar de serem minoria, essas lojas empregam 20 mil funcionários diretos, 30 mil indiretos e respondem por 40% da receita operacional da ECT. Era para serem exterminadas?

A agencia do Boulevard Rio Shopping, em Vila Isabel, que passei a usar depois que fecharam a franquiada do Boulevard 28 de Setembro, é uma loja ridiculamente pequena, sem ar-condicionado, com funcionários públicos mal treinados e de mau humor, com um espaço de atendimento ao público de menos de 20 m2, a ponto de a fila estar sempre pelos corredores do shopping.

Enquanto isso, centenas de franquiados no Brasil, que ofereciam serviço de primeira, como o Sergio me prestava na agencia do Boulevard 28 de Setembro, até mandando pegar encomendas maiores na minha casa, foram perseguidas até fecharem as portas.

Nos dias de hoje, não tem cabimento que os procedimentos dos Correios sejam tão tacanhos. Algumas agencias usam selos e mais selos, uma miríade multicolorida que torna a embalagem uma porta de tinturaria. Mas o auge foi ver um selo que foi colado à embalagem, um tremendo retrocesso aos tempos do olho-de-boi.

E ficam aqueles funcionários fazendo conta-de-chegar pra ver quantos selos vão colar no seu despacho. Automatização, passa longe; encostadas por ali, máquinas sem uso. O código de rastreamento, que pode ser monitorado pela internet e smartphone, não vale de nada, porque eles simplesmente não atualizam o status da sua encomenda. Vamos esperar quando a Lava-Jato vai chegar aos Correios.

MINHA PROPOSTA: OS CORREIOS DISTRIBUINDO LIVROS PELO BRASIL

Sabemos que milhares de micro, pequenas e médias empresas brasileiras estão à margem da Lei Rouanet, por ignorância e falta de informação.

Se os benefícios que podem auferir da Lei lhe forem suficientemente informados, poderemos criar um interessante fundo de recursos que seria usado na proposta que apresento há tempos, desde a primeira vez que falei sobre ela no FIM – Fim de Semana do Livro no Porto, realizado no Morro da Conceição, no Rio de Janeiro: fazer dos Correios o “distribuidor oficial de livros pelo Brasil”.

A ideia é simples e fácil de realizar, mas com impactos certamente significativos:

  1. Criar um mecanismo na Lei Rouanet em que micro, pequenas e médias empresas possam formar, com doações específicas, um fundo especialmente criado na Lei Rouanet para patrocinar a distribuição de livros pelo Brasil através da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que se tornaria então a Distribuidora Oficial do Livro pelo Brasil.
  2. O Governo Brasileiro promoveria a participação dos Correios como distribuidor de livros, criando tarifas especiais, com descontos subsidiados que esse fundo especial da Lei Rouanet cobriria, para tornar barata a circulação de livros pelos Correios – fosse uma unidade, fossem grandes volumes (beneficiando e incentivando pessoas físicas e jurídicas).
  3. Os Correios criariam embalagens, especialmente desenhadas para proteger e embalar, e essas embalagens que poderiam conter propaganda (mediante concorrência cujo vencedor forneceria as embalagens, em troca da veiculação de mensagens publicitárias), para baratear o custo para o usuário final.
  4. Os Correios dariam tratamento prioritário e manuseio especial aos livros, despachando-os sempre por via aérea quando a distância a ser percorrida ultrapassasse 400 Km (a distância que separa Rio de Janeiro e São Paulo).

Essa é a ideia básica, bem básica, que deveria ser discutida numa equipe multidisciplinar, envolvendo o Ministério da Cultura, os Correios, o Instituto Pró-Livro, Abrelivros – Associação Brasileira de Editores de Livros, a CBL – Câmara Brasileira do Livro, o SNEL – Sindicato Nacional dos Editores de Livros e a Libre – Liga Brasileira de Editoras. E, claro, com a participação de jornalistas e escritores, publicitários e profissionais de mark¬eting. Só não vale entrar vaidade ou puxação de brasa para uma sardinha só.

Todo esse processo precisa ser realizado sem hesitação, coordenado por alguém sério, com todos os processos e procedimentos abertos num site específico na internet, de modo que todos os cidadãos, sejam ou não do ramo editorial, possam acompanhar tudo.

Transparência total ou Lava-Jato neles!

Enfim, é isso. Como um dos idiotas citados pelo Umberto Eco, não canso de falar sobre isso:

EU QUERO OS CORREIOS COMO DISTRIBUIDOR OFICIAL DO LIVRO PELO BRASIL.

Quem sabe alguém ouve? Acha que a ideia nem é tão idiota assim? E que pode ser realizada?

Começar a distribuir com eficiência seria um importante passo para o livro chegar mais longe, mais barato, mais rápido, mais bem protegido…