CHEGA DE BANCAR O CIRQUE DU SOLEIL E ARTISTAS “COINSAGRADOS”*

No dia em que Tom Jobim morreu, eu estava em casa, com meu filho Bernardo e minha saudosa amiga Lourdes May, organizando no computador os originais de O Escritor de Letras Redondas, biografia que ela escrevia para homenagear seu amigo José Cândido de Carvalho (1914-1989), imortal que ocupou a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras.

José Cândido de Carvalho

Ao longo de suas vidas profissionais, ela como relações públicas, ele como jornalista, May e Zé Cândido conviveram principalmente na redação de O Cruzeiro, na época em que, sob as graças do seu editor, ele ia diariamente ao trabalho e se sentava para escrever aquele que se tornaria um dos mais fantásticos romances da Literatura Brasileira – a obra-prima O Coronel e o Lobisomem (1964), que inspirou novela, filme e minissérie.

Coronel-Capas

(Foi Zé Cândido quem criou o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado com todos aqueles trejeitos e vícios de linguagem que só alcançariam o estrelato através de Odorico Paraguassu, seu clone em “O Bem-Amado”. Nem May, nem Zé Cândido se conformavam com o que consideravam um descarado plágio, Zé chamando seu desafeto de “Vampiro de Peruca” num ácido artigo publicado originalmente na Revista Nacional, que May pretendia publicar na biografia).

Não é de hoje que falo e escrevo sobre isso: a dificuldade de publicar um projeto importante para a Cultura Brasileira, se você não é um artista “coinsagrado” ou se não tem um QI (quem indica?) poderoso. E vou continuar, porque é nisso que acredito, mesmo sem espaços maiores para manifestação ou apoio.

Falei aqui, falei no Café com Esporte (da Rádio Roquette Pinto), no portal Overmundo, nesta Gol de Letras, em entrevistas aqui e ali e, também, quando fui convidado para uma mesa de debates sobre literatura de futebol no FIM – Fim de Semana do Livro no Porto. Alguns, torcem o nariz quando repito a ladainha. Para eles, minha palavra de consolo…

Cheguei a escrever para o Ministério da Cultura, comentando as dificuldades de se obter financiamento para projetos importantes para a Cultura Brasileira, sempre perdendo para megaempresários, mega-artistas, mega-patrocinadores e mega-potentados da mídia.

A entrevista do sociólogo baiano Juca Ferreira, quando voltou ao Ministério da Cultura, apontava o mau uso da Lei, e as propostas que ele apresentava.

Ministro Juca Ferreira

Você mesmo pode ler o que ele disse: aqui e numa sabatina para a Folha de São Paulo:

Quando o Ministro propõe que o Fundo Nacional de Cultura, possa manobrar à vontade 20% dos recursos da Lei, é sinal de que o Governo não está satisfeito com o uso que dela é feito, para fortalecer a Cultura em tempos de grave crise financeira e política.

Também não acho legal (duplo sentido) que as estatais que detêm/detinham a maior massa de recursos financeiros para mecenato à Cultura (BNDES, Banco do Brasil, Petrobras, Eletrobrás e Caixa) o façam de acordo com a visibilidade dos projetos nos mega-potentados de mídia. Porque isso não passa pela análise da relevância cultural.

Sempre que saía o resultado de uma lista de artistas e projetos financiados pela mais famosa lei de incentivo à Cultura em nosso País, Lourdes May me ligava indignada: sua biografia sobre Zé Cândido nunca estava entre as contempladas.

Às vezes, conseguia deixá-la algo aliviada quando mostrava que pequenos grupos lá dos cafundós do Brasil haviam recebido uma “merrequinha” para tocar importantíssimas manifestações culturais: um tambor da mina aqui, um coco lá, um pequeno circo insistindo em manter as tradições de Piolim, Arrelia e Carequinha…

Ela fingia que se conformava e voltava a trabalhar, sempre aprimorando o texto e aprofundando as pesquisas, no tremendo calhamaço em que, ao longo dos tempos, se transformou sua biografia nunca editada. Uma pena!

É uma conta danosa à Cultura Brasileira. Só grandes projetos, de grandes artistas, que beneficiem grandes empresas e potentados de mídia, se dão realmente nem na Rouanet. Um círculo vicioso que começa na aprovação, passa pela análise das estatais que detém a maioria do poder de compra de projetos, beneficiando empresas patrocinadoras que só patrocinam projetos que tenham poder de mídia.

Quando Maria Bethania pleiteou R$1,5 milhão para criar um blog de poesia, não entendi. Ela já era uma artista pra lá de realizada, com poder de caixa para bancar seus projetos. E blog se faz de graça, com ferramentas simples de baixar e fáceis de usar. Mas a ganância faz parte de alguns grandes artistas. O Ministro botou panos quentes nas pelancas das celebridades:

“Você não estimula o desenvolvimento se não atende a diversos segmentos”.

Veja-se o caso de João Gilberto: querendo comemorar seus 80 anos de idade com um show, impediu que seu empresário tentasse as leis de incentivo. Ou faria o show com o dinheiro dele, ou não faria. Não fez, porque o ingresso custaria então indecentes R$1.000, com o que ele não concordava. E cancelou tudo.

E aí temos um dos pontos frágeis da Lei Rouanet. Ao mesmo tempo em que o MinC obriga o projeto apoiado a fazer concessões aqui e ali, não determina o valor do ingresso de megaespetáculos, certamente para não entrar em conflito com os artistas (deve ser por isso que o Ministro quer 20% da Rouanet pro FNC; mas ele é o dono da grana, pode fazer o que for melhor pra Cultura Brasileira).

Ora, o que mais se vê são projetos inteiramente bancados pela Lei Rouanet, aos quais artistas e empresários agregam “apoios culturais” de tudo que é tipo e feição: empresas aéreas concedem passagens; bares e restaurantes, alimentação; o setor de hotelaria garante cama e banho. E mais pequeninas coisas, aqui e ali, cabeleireiro, rent a car, empréstimo de roupas, flores, massagens, toalhas brancas, sal do himalaia, uma orgia de facilidades e pequenos luxos tão ao gosto das celebridades. São os mesmos que acusam políticos de corrupção e malversação de dinheiro público?

O Cirque du Soleil, a quem não se nega a qualidade e a beleza, traz seus shows itinerantes ao Brasil, ganha um dinheirão da Lei e, driblando as contrapartidas cobradas de pequenos e médios promotores culturais, cobra preços exorbitantes ao cidadão. Qual o benefício que a Lei proporciona ao cidadão, já que o Cirque foi bancado com o seu, o meu, o nosso suado dinheirinho de impostos que nunca voltam em benefícios? O Cirque enche as burras, às nossas custas, mas o circo brasileiro praticamente não existe mais. Mas quem liga?

bilhetecirque

Varekai: R$360 (inteira). Pra idoso, é metade…

Propostas de mudanças na Lei Rouanet

Como se fosse uma chamada pública, faço aqui um exercício, um pensar alto, imaginando coisas que ajudariam principalmente a Cultura Brasileira:

  1. Eleger um grupo de artistas e promotores culturais que, pelo tempo de estrada e sucesso alcançados, se tornaram hors-concours.
  2. Contemplar, prioritariamente, artistas e projetos culturais existentes fora do eixo das grandes capitais, para de fato incentivar a Cultura Brasileira.
  3. Determinar, de acordo com parâmetros a serem discutidos a nível popular, os valores máximos a serem cobrados por ingressos e produtos dos projetos incentivados.

Ao longo da minha carreira de editor, consegui emplacar sozinho alguns projetos na Lei. Não lancei mão de pessoal especializado em inscrever projetos porque não acho que sejam necessários no meu caso. Meus projetos são simples e diretos. Não crio rubricas demais que embaralhem o meio de campo. Digo o que preciso, quem será pago com quanta verba, explico tudo direitinho e foi assim que consegui aprovação em cinco projetos, mesmo que para nenhum deles tenha conseguido apoiador (outra caixa-preta inexplicável).

Mas foi interessante responder a um questionamento do MinC sobre o motivo pelo qual eu propunha cobrar tão pouco por determinado livro. Era o projeto do material inédito – texto e fotos – da autobiografia mundialmente inédita de Arthur Friedenreich, o primeiro monstro sagrado do futebol brasileiro.

Pretendia fazer um livro de qualidade, mas sem luxos. De capa dura e bom papel, porque o conteúdo merece. Com excelência gráfica, porque é nisso que acredito. Mas estava tudo bancado pela Lei Rouanet. Tudo e todos. Para que onerar o leitor, como cidadão/contribuinte, se ele havia ajudado a bancar o livro?

O diálogo abaixo, livremente criado em torno da troca de e-mails com o MinC, é uma alegoria do que eu acredito.

– O preço do livro no mercado será esse mesmo?
– Sim.
– Por que tão barato?
– Porque, como tudo e todos estão remunerados dentro do que o projeto contemplou, a intenção agora é vender esses livros com um preço barato, o mais rapidamente possível, para beneficiar o leitor e fechar a tampa desse projeto e começar a cuidar de outro.

A Rouanet e os Livros

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“Um País se faz…”

Outra coisa que vivo comentando (estarei ficando velho e repetitivo?): a indústria editorial brasileira precisa receber apoio de uma política de Estado que colabore para a circulação irrestrita do livro por todos os rincões do País.

Quando editei O artilheiro que não sorria, a biografia de Waldir Cardoso Lebrego, o Quarentinha, o perene maior artilheiro da história do Botafogo de Futebol e Regatas, o filho varão do craque e eu bancamos a ida do autor Rafael Casé a Belém do Pará, atrás de importantes informações da família do jogador, que ainda hoje mora na capital paraense.

Livro pronto para ser lançado, vem o pedido da família para ser feito um lançamento lá. Uma livraria se interessou pela ideia. As contas não fechavam. Mandar uma caixa com 100 livros para Belém tornava o evento proibitivo. A vendagem dos livros não cobriria os custos. Tivemos que desistir.

Ainda hoje é assim. Poste-se um livro nos Correios, do Rio de Janeiro para Belém do Pará. Um livro de formato normal (14 x 21 cm), com algo em torno de 200 páginas. Peso mínimo aceito na modalidade PAC: 1 Kg. Preço do livro: R$40,00. Preço de frete: R$26,30. Dias para entrega: 12 dias úteis. Quem banca essa maluquice?

A Rouanet distribuindo de livros pelo Brasil

estantelivros

“Oh! bendito o que semeia/Livros, livros, à mancheia/E manda o povo pensar…”
(Castro Alves)

Sabemos que a Lei Rouanet é sub-utilizada. E que num país continental como o Brasil, sem malha ferroviária de qualidade, a circulação de livros demora tempo demais.

Milhares de micro e pequenas empresas brasileiras nem sabem que poderiam estar se beneficiando da Lei Rouanet, e beneficiando a Cultura Brasileira. Então, um primeiro e importante passo seria agregar essa informação nas documentações oficiais que chegam a todas as empresas. Como e quando fazer, quanto e onde pode investir etc.

Muitas dessas empresas, pelo que teriam com o que contribuir, talvez não pudessem bancar um projeto inteiro. Mas aí é que LivrosdeFutebol apresenta uma ideia:

  • Micro e pequenas empresas cujo Imposto de Renda não atingisse um patamar que lhes permitisse bancar um projeto inteiro, contribuiriam para um fundo único, gerido pelo MinC, para bancar a distribuição de livros pelos Correios que, por sua vez…
  • Criaria embalagens próprias para despacho de livros (aéreo, preferencialmente, para agilizar a entrega), lhes daria atendimento prioritário e manuseio adequado, com tarifas subsidiadas pelo Governo…
  • tanto para um único exemplar (o que beneficia o cidadão, que pode pretender presentear alguém com um livro) como para editoras (de qualquer porte), colaborando para uma circulação mais rápida e uniforme pelo País

As empresas que contribuíssem para esse fundo de apoio à circulação de livros pelo País poderiam ser merecedoras de incentivos a mais, a serem discutidos.

Enfim, é preciso tentar fazer algo diferente. As coisas não andam bem. Lê-se pouco. Nossas crianças estão à mercê de redes sociais em smartphones. As livrarias viraram marketplace, só compram o que vendem (embora exponham muita porcaria, autoajuda e livros de colorir). Sem uma política séria e honesta para aumentar o número de leitores, incentivar a garotada se encantar pela leitura, o País vai morro abaixo.

PS-1: *coin-sagrados = neologismo que criei
para identificar as celebridades culturais
que estão com o boi na sombra…)

PS-2: No momento em que escrevo,
a Folha SP divulga que o TCU proibiu
o uso da Lei Rouanet por projetos
com fins lucrativos e autossustentáveis.
Vamos ver quanto tempo isso se sustenta.

cesar