AS LIVRARIAS SE TORNARAM SUPERMERCADOS?

Livrarias Supermercados

Foto de Fábio Aleixo/Agencia O Globo

O escritor e gestor cultural mineiro Afonso Borges analisa em “O Globo”, a relação dos espaços voltados para a venda de livros com as editoras

A situação é conhecida dos poucos brasileiros que compram livros. Você entra numa livraria física, das poucas que restaram abertas, e um vendedor se aproxima, solícito. Você pede um título e, invariavelmente, é informado de que ele “está esgotado”; mas lhe é oferecida a possibilidade de “encomendar” o livro que logo estará em suas mãos. Você paga, com dinheiro ou cartão, e garante a reserva. Em dois ou três dias, volta lá e pega seu exemplar.

Mas será que as pessoas sabem por que isso acontece?

Aquela reserva que você fez e pagou ao vendedor se transforma em um pedido à editora, quase sempre média ou pequena, sem cacife para receber uma encomenda, mesmo de consignação.

Não sei se você entendeu direito, então vou me explicar melhor: sua reserva de um exemplar vira uma encomenda de um exemplar, que o vendedor que lhe atendeu transforma em um pedido à editora, que manda e  fatura o livro para a livraria, com um prazo, invariavelmente de 60 dias para receber. Ouviu bem? Sessenta dias para receber o preço de um único exemplar, com desconto de, no mínimo, 50% de desconto.

Essa conta não fecha, claro.

Pelo menos para as editoras que não têm cacife para mandar às livrarias um bom estoque dos seus títulos, de modo que o leitor que entre numa livraria ávido por novidades possa ter os seus títulos em oferta.

Em matéria publicada em (13/10) em O Globo, Afonso Borges, escritor e gestor cultural mineiro, criador do blog Sempre um Papo (considerado um dos mais respeitados projetos de incentivo ao hábito da leitura do Brasil), acusa as livrarias de terem virado supermercados (com oferta de um monte de bugigangas – material de escritório e escolar, brinquedos, eletrônicos etc.), vendendo espaços em gôndolas e prateleiras (como fazem os supermercados) às grandes editoras que podem pagar por eles, numa guerra fratricida que não interessa a ninguém. Muito menos ao leitor.

Já passei por isso. No final do ano passado, ávido em colocar meus títulos em oferta para o Natal, época em que mais pessoas compram livros, trabalhei muito para divulgar o trabalho da LivrosdeFutebol, sem sucesso. Não recebi uma encomenda sequer; o Natal passou sem que meus autores, doidos para verem seus livros nas prateleiras, tivessem esse gostinho. Pelo menos um deles ficou pê da vida, reclamando pelas redes sociais que eu não fazia esse trabalho, e que o seu livro não vendia mais porque eu não o divulgava. Passei a copiar para ele cada pedido que pingava, três aqui, um no mês seguinte… parece que ele se tocou, embora não tenha se retratado pela injustiça, porque eu ralo pra caramba. Para fazer livros e para divulgá-los.

Um exemplo

Por ter me mudado no começo de setembro para a cidade de Macaé, 180km a Noroeste da Cidade do Rio de Janeiro, entreguei minha distribuição à Mauad-X, competente editora com quem mantenho relações desde meados dos anos 1990, e onde produzi meu primeiro livro de futebol – o excelente O Jogo Bruto das Copas do Mundo, de Teixeira Heizer.

Claro que, pelo seu cacife, a Mauad consegue abrir mais espaços do que eu, nanico. Mas isso não impediu que uma grande rede de livrarias lhes fizesse recentemente um pedido de apenas três exemplares, com o que a Mauad propôs uma consignação de maior fôlego, logo recusada pelo representante da “major”, que não queria expor meus livros lá, apenas vender os três exemplares que vendeu na loja física – ou no site.

Por isso é que eu respondi pelo Twitter ao Afonso Borges que as livrarias não viraram apenas supermercados, mas antes marketplace – apenas um lugar onde se faz comércio de bens e serviços: pode ser um livro ou um pacote com 16 rolos de papel higiênico. Para eles, que aparentam pouco ler, é tudo igual. É tudo papel.

Sobre Afonso Borges

Afonso Borges

Foto do blog “Sempre um Papo”

Escritor, produtor cultural e empresário, é responsável pela criação, coordenação e desenvolvimento do Sempre Um Papo, um dos mais respeitados projetos de incentivo ao hábito da leitura do Brasil. Possui quatro livros publicados: Retrato de Época (poemas, 1980), Bandeiras no Varal (poema-plaquete, 1983), Sinal de Contradição – Conversas com Frei Betto (Espaço & Tempo, Rio de Janeiro, 1988) publicado também na Suíça (Zeichen des Widespruchs/Edition Exodus, Fribourg/1989) e na Argentina, e Profecia das Minas (poemas, 1993).

Leia a íntegra da matéria dele em “O Globo”: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/artigo-as-livrarias-se-tornaram-supermercados-1-17756248

Abraços do
Cesar Oliveira
cesar.oliveira@globo.com
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