ARMADILHAS MENTAIS

O biólogo Richard Dawkins, em seu livro O Maior Espetáculo da Terra, narra uma famosa experiência do psicólogo e pesquisador Daniel J. Simons, professor da Universidade do Illinois, e que é mesmo surpreendente. Um pesquisador reúne um grupo de voluntários para participar de um teste da capacidade de observação, e avisa que vai exibir um filme que mostra alguns jovens passando duas bolas de basquete entre si. A tarefa dos voluntários é prestar bastante atenção no filme para contar o número de vezes em que as bolas são passadas entre as pessoas. Inicia-se a exibição da filmagem, que dura 25 segundos. O aplicador do teste recolhe os papeis onde todos anotaram suas contagens e então pergunta: “quantos de vocês viram o gorila?”. Em geral, a maior parte dos expectadores fica bastante surpresa, pois aparentemente não havia nenhum gorila para ser visto. O pesquisador, então, exibe o filme mais uma vez, e então podemos perceber que, em determinado momento, aparece na tela um homem vestido de gorila que vai para o meio dos jogadores, olha para a câmera, bate no peito e depois vai embora. Ele fica em cena por um terço da duração do filme, e mesmo assim passa despercebido.

Essa é uma dentre muitas outras experiências similares desenvolvidas no âmbito da Psicologia no estudo da percepção e da cognição, mas Richard Dawkins faz um comentário assustador e que tem grande interesse para o nosso cotidiano: aquelas pessoas seriam capazes de jurar, com toda a sinceridade, que não havia nenhum gorila na cena – mesmo que estivessem prestando depoimento em juízo. Imaginem se fosse um caso grave, onde está sendo apurado um crime, e a testemunha afirmasse, cheia de convicção, que determinada pessoa não estava presente num certo local…

Um fenômeno interessante é conhecido como Tendência de Confirmação: somos inclinados a procurar elementos que confirmem nossas ideias, e a rejeitar informações que se choquem com elas. Quem é racista vai tentar encontrar justificativas para seu preconceito – como, por exemplo, considerar o número de presidiários negros como um fundamento para seu desprezo pela raça negra. Ao mesmo tempo, vai desconsiderar as questões sociais e os diversos outros fatores que contribuíram para a situação observada. Um machista vai dizer que “os grandes cientistas foram homens”, desconsiderando a existência de mulheres cientistas de destaque (como Marie Curie), e sem levar em conta que, por muito tempo, as mulheres tiveram menores oportunidades de educação e desenvolvimento profissional. Uma pessoa exageradamente patriota vai sobrevalorizar os méritos de seu país e atenuar ou justificar os problemas, além de acusar os críticos de falta de patriotismo.

Além disso, temos a tendência de dar mais crédito a pessoas que dizem coisas que correspondem às nossas ideias. No romance Guerra e Paz, de Liev Tolstói, o personagem de Pierre Bezhukov fica rico e cheio de prestígio por causa de uma herança. Começam a elogiar sua bondade e inteligência, e ele acaba acreditando na sinceridade desses elogios, até porque sempre se achou extraordinariamente bom e inteligente. Se essas mesmas pessoas falassem em sua maldade e burrice, é improvável que ele ficasse tão inclinado a acreditar nelas.

Existem muitas armadilhas mentais, e ninguém está livre delas – até mesmo as pessoas mais lúcidas, cultas e inteligentes. Deveríamos prestar mais atenção ao que acontece dentro de nós para evitarmos esses tropeços.

fred