A TRILOGIA DE UM ERRO MÉDICO – ENCERRAMENTO

Desde que meu pai faleceu em 10 de  agosto de 1995 estou devendo essa história. Escrevê-la agora, talvez seja a superação total de uma perda que causou tanto sofrimento para mim e minha família. Ao todo são três crônicas. Hoje eu concluo a trilogia dos textos.

QUANDO A MORTE NÃO É MAIS UM MISTÉRIO

Acordo cedo e vou para mais um dia de sofrimento. O IML fez a autópsia e encaminhou o caixão para o crematório. Chego na Vila Alpina às dez da manhã. Na porta, vários repórteres aguardam a minha chegada. Todos olhavam tristes para mim e, respeitando minha dor, não se aproximam, apenas fazem sinais com a mão e a cabeça. No estacionamento, um rosto amigo, o querido Tom Figueiredo, um publicitário que conheci ainda na época que meu pai estava fora do país. Ele me abraçou e disse: ” Faltei ao trabalho porque sei que hoje você vai precisar de um amigo. ” Entramos no prédio e Tom fez o reconhecimento do corpo por mim.

Na saída, toca o celular. Silvano Raia convocaria uma coletiva e pedia que eu ficasse ao lado dele durante a entrevista. Disse que de maneira nenhuma. Depois de tudo o que aconteceu, eu também queria explicações. Raia cancelou a entrevista e, desapareceu. 

Fui até o Hospital das Clínicas (HC / SP) e requisitei o prontuário. Constatei que o quadro clínico dele estava longe de ser bom como os médicos afirmavam. E não era pra menos, meu pai tinha 75 anos e apresentava hemorragias frequentes em todas as partes do corpo. Descobri ainda que, durante a cirurgia, o coração parou algumas vezes e foi reanimado. Ao ser levado para a UTI, os rins já não funcionavam, os pulmões também estavam com problemas e o fígado transplantado sofreu um processo de rejeição. Para piorar, na noite em que meu pai faleceu, a enfermeira de plantão se ausentou do quarto por muito tempo e a máquina de hemodiálise, sem sangue, passou a bombear ar nas veias do paciente. Uma quantidade tão grande de ar que, segundo o médico legista, antecipou em algumas horas o que ocorreria de qualquer maneira.

Em seu livro sobre Florestan Fernandes, o jornalista Haroldo Ceravolo cita a fala do diretor do HC em 95 Irineu Velasco: ” A morte do sociólogo era certa. O seu caso poderia ser comparado ao de um paciente terminal de câncer que é atropelado por um caminhão ao atravessar a rua (revista Veja, 06/09/1995) “. O fígado transplantado estava infectado com a bactéria causadora da sífilis, o que obrigou os médicos a aplicarem uma dose elevada de antibióticos depois da operação. Com tudo isso, meu pai entrou rapidamente num processo de falência múltipla de órgãos.

Raia, quando me ligou para comunicar a morte, sabia de tudo isso, mas, mesmo assim, dispensou o paciente da autópsia. Ocorre que o médico de plantão colocou no seu relatório o erro com a hemodiálise. Pronto, as informações caíram na rede do hospital, os dados estavam à disposição no sistema interno de registros. Pela manhã, quando Raia chegou ao HC, foi chamado às pressas na sala da direção, que cobrou dele a falta da autópsia.

O primeiro julgamento do médico foi no próprio HC. Houve a abertura de um processo interno pelo hospital e eu fui ouvido por uma comissão. Nesta audiência, os médicos deixaram claro que não levariam adiante uma punição ao Dr. Raia. Crucificariam a enfermeira e ponto final. Fiquei tão indignado que, em certo momento da reunião, me levantei e disse: “Senhores, não vamos mais perder o nosso tempo, isso aqui é um grande teatro. Está claro que o corporativismo irá levar a absolvição dos médicos responsáveis pela morte do meu pai. “

Dito e feito: dias depois, Raia e Mies eram absolvidos. A enfermeira foi condenada, afastada e se escondeu (ou foi escondida). Estive em Brasília e conversei com o presidente Fernando Henrique Cardoso, que me contou que durante todo o tratamento do meu pai, Raia telefonou diversas vezes para falar do estado do paciente amigo. E que, nessas oportunidades, tentou convencê-lo a ajudar a colocar em pé o Hospital do Fígado que ele, Silvano Raia, queria construir.

Certo dia recebo em minha casa uma intimação para comparecer ao julgamento no Conselho Regional de Medicina. Raia me procura e marca uma conversa na unidade do Albert Einstein da Avenida Brasil, SP. O encontro foi rápido. Ele pedia para que eu não o atacasse no CRM. Alegava ser inocente e que não foi responsável pelos erros cometidos no tratamento e morte de meu pai. Disse para ele ficar tranquilo. Se ele realmente era inocente, não deveria temer. No dia da primeira audiência, para uma plateia de médicos, tentei quebrar o corporativismo. Fiz um discurso mostrando que naquele momento estavam sendo julgados dois professores titulares da USP: o médico e a vítima, meu pai. Fiz um discurso tão emotivo e denso que, ao fim da sessão, Raia foi punido com uma advertência. Ficou furioso e saiu dizendo o diabo para mim. Meses depois recebo outra intimação do CRM, desta vez para julgar um recurso feito por Raia. Dois dias depois recebo outro comunicado informando que o julgamento havia sido cancelado sem previsão de data para ser retomado. Tempos depois descubro que o julgamento não havia sido cancelado coisa alguma. Com a minha ausência, Raia conseguiu ser absolvido. Recentemente Sergio Mies me telefonou disposto a contar tudo que sabia, mas não tive estômago para me encontrar com ele. Eu imagino que ele teria detalhes importantes pra me dar. Mas minha mãe, cansada de tanto sofrimento, pediu para encerrar o caso. Não traria meu pai de volta, a justiça não seria feita, e a saudade não seria reduzida.

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GALERIA DE FOTOS de TUDO UM POUCO

A primeira foto estou eu, minha ãe, dona Myrian e meu pai em Brasília.

A primeira foto estou eu, minha mãe, dona Myrian e meu pai em Brasília.

A segunda foto é a família reunida nos anos 60 na casa da Alameda Jaú.

É a família reunida nos anos 60 na casa da Alameda Jaú.

A terceira foto é minha mãe e meu pai no inicio dos anos 50.

Minha mãe e meu pai no inicio dos anos 50.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto Plinio Sampaio, e Alda Marcoantonio no velório de meu pai na USP.

Foto: Plínio Sampaio, e Alda Marco Antonio no velório de meu pai na USP.

foto Florestan e FHC na semana Florestan Fernandes na universidade de Marilia em 1986.

Aqui: Florestan e FHC na semana Florestan Fernandes na universidade de Marilia em 1986.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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FLORESTAN FERNANDES JÚNIOR – atuante na comunicação no país, escreve na coluna “ De tudo um Pouco”, no POR DENTRO DA MÍDIA. São análises com vasto conteúdo do que realmente é importante no noticiário. De tudo um Pouco, com Florestan Fernandes Júnior, de segunda a sexta-feira, no Por Dentro da Mídia Clique aqui para ler todos os textos http://pordentrodamidia.com.br/view/colunistas/de-tudo-um-pouco/

FLORESTAN FERNANDES JÚNIOR – atuante na comunicação no país, escreve na coluna “ De tudo um Pouco”, no POR DENTRO DA MÍDIA. São análises com vasto conteúdo do que realmente é importante no noticiário. De tudo um Pouco, com Florestan Fernandes Júnior, de segunda a sexta-feira, no Por Dentro da Mídia 

 

 

 

1 comentário

  1. Claudia de Almeida Mogadouro dezembro 4, 2013 10:05 am 

    Excelentes as três crônicas. Parece que, de alguma forma, essa denúncia em forma de crônica nos alivia da saudade de pessoa tão querida. Digo pessoa querida, pela sua produção intelectual e pela sua postura ética, exemplo para todos. Pois não o conheci pessoalmente. Florestan Jr, você herdou não apenas o talento intelectual, mas a coragem do seu pai. Ter ido até o fim como fez (ou tentou fazer) mexendo com esse poder invisível e tão nocivo (do corporativismo dos médicos) é coisa pra pessoa muito corajosa e íntegra. Valeu a leitura, vou divulgá-la. Abração

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