A REDE LOBO E AS “ParaLimpíadas”

Neste domingo, assistindo à Globo News, das poucas coisas que paro pra ver em jornalismo na TV, vi os colegas grafando e falando “Paralímpicos” em vez do “ParaOlímpicos” com um grato “o” garantindo a integridade da palavra e da língua portuguesa, a “bela”, parafraseando, em parte, meu caro professor Pasquale Cipro Neto.

De pronto, mesmo já sabendo da polêmica e da rendição, postei o seguinte na minha “timeline” do Facebook:

“ParaLímpicas” no lugar de “ParaOlímpicas” é de doer os ouvidos, Globonews!!!

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Não combina com vocês esse atentado sonoro.”

Fiz o que fiz apenas porque a sonoridade é horrível, porque sou um inveterado amante da língua portuguesa, mesmo a traindo vez ou outra com indesejáveis erros, porque se trata de dama difícil, o que só faz aumentar a minha atração, e, sim, porque creio realmente no que escrevi. A Globo News não merece o equívoco de interpretação da língua. É culta e charmosa o suficiente para não correr pelos campos pantanosos da aculturação e do entreguismo linguístico.

Não demorou e tive grande e qualificada repercussão para tema tão rebuscado. E foi a grafia, a língua de Camões, a emblemática disputa entre estrangeirismos e afins, o que chamou a atenção de todos, não a polêmica fácil da crítica a qualquer coisa da TV Globo.

Se o Facebook é um campo aberto, inclusive para o besteirol, os meus amigos caminham em sentido contrário.

Volto ao fato em si, mesmo há muito não sendo mais um purista. Pela repercussão e os comentários, li e dei-me à pesquisa, lembrei-me e revi coisas das quais já tinha tido contato para não fugir da conclusão que o Comitê Olímpico Brasileiro tinha aderido ao estrangeirismo puro, sem pestanejar, do original que grafa em inglês o “Paralympics”. Em inglês, convenhamos, também um horror, visto que o gênio de lá deve ter aprendido em algum momento da vida que os jogos são “Olympics” e, mesmo que “Paralympics”, não precisam ter nada a menos que o original. Se visse o autor da ideia, diria: “Paralympic is not a disable game. On the contrary. It is a special and full of pride game because all players are so brave”.

No entanto, todavia, contudo, entretanto, não me aventurarei em corrigir os ingleses. Volto ao caso abaixo dos trópicos com os “Jogos do Rio 2016”.

“Você está certo”, disse ao caro amigo de Face Celso Arnaldo Araujo, que rapidamente me enviou as logomarcas oficiais com as grafias sem “o” para me dar os motivos reais de o porquê de toda aquela falação sem “o”.

Compreendendo o fato, da capitulação do COB ao COI nos moldes da CBF à FIFA, não me furtei em argumentar que a adoção por órgão oficial não obriga jornalista a falar tal como. Até o incita a discutir, divergir. Compreendo a dor que pode causar em alguns colegas jornalistas que trabalham na emissora porque se a Globo comercial é detentora dos direitos, tem obrigações também. Não sei se inclui isso, de fazer o próprio jornalismo se dar ao atentado linguístico, mas compreendo.

Todavia, me pergunto sobre a integridade da língua portuguesa. E aquela instituição que deveria agir intensamente na defesa da língua que é a ABL, também conhecida como Academia Brasileira de Letras, a do chá das cinco?

O que diz?

Aliás, diz algo?

E o governo brasileiro?

Li também que os portugueses, os de Portugal, teriam se rendido ao formato do breve e impensado aportuguesamento do termo em inglês.

Com muitos amigos portugueses, alertado por um deles sobre tamanhos e importâncias contemporâneas de ambos os países, pergunto: e o Brasil com mais de 200 milhões de falantes precisa perguntar à Coroa como deve falar e escrever sua língua? Talvez os portugueses estejam esperando a imensa e poderosa colônia por o “pau-brasil” na mesa e tomar posição em defesa da língua de Machado de Assis.

Enfim, depois dos 40 anos (43, confesso), produtor e diretor independente de filmes, séries, entrevistas e artigos sobre este país e seu povo, como é meu caso, posso firmar convicções. É verdade que, mesmo quando funcionário de uma empresa do grupo, nunca abri mão do meu livre arbítrio, o que me custou caro, mas          libertou-me a consciência para sempre.

Fato é que eu vou continuar falando e escrevendo “ParaOlímpicos” com a letra “o” intermediando o bom senso da junção de duas palavras.

E questionar a adoção acéfala pelo comitê desse estrangeirismo sem sentido.

Até porque os mesmos deslumbrados do COB que cederam agora não demorariam a mudar a grafia se o COI o fizesse. Sem pensar. Como praxe.

Desculpem-me, mas isso é comportamento vira-lata demais por meu gosto.

Ps.: a grafia “Rede Lobo”, sem o ‘G” em maiúsculo, foi apenas trocadilho gráfico que não pude evitar. Que a Globo siga seu caminho.

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adalberto