A PRISÃO DO PRECONCEITO

Problemas como depressão, ansiedade e distúrbios alimentares são cada vez mais comuns, e na verdade não deveriam causar mais estranheza do que uma gastrite ou faringite.  Pessoas que antes sofriam sozinhas hoje buscam tratamento e levam vidas normais: são engenheiros, médicos, artistas, professores, atletas, pais e mães, que reconheceram a necessidade de ajuda e agora conseguem levar uma existência produtiva e mais feliz.  Felizmente, hoje em dia, não há mais tanto preconceito em relação as consultas com psiquiatras, psicanalistas ou psicólogos: não se trata de sinal de fraqueza, não indica uma falha de caráter ou nada do gênero: pelo contrário – indica que a pessoa está procurando caminhos para viver melhor.

Há quem sofra horrivelmente, mas insista em dizer: “eu não preciso disso; eu aguento o sofrimento sozinho”.  E eu respondo: “mas, para que? Qual é a vantagem de negar ajuda a si próprio?”  De fato, há pessoas que vivem mergulhadas na dor, levando vidas infernais há anos, e se recusam a buscar uma avaliação médica ou psicológica.  Isso é fruto de desconhecimento, e também do histórico preconceito que foi construído em torno da figura do paciente psiquiátrico.  Provavelmente a origem dessa postura preconceituosa está relacionada ao regime de segregação que foi imposto aos chamados “loucos” a partir de certo momento histórico.

Durante muito tempo, não havia a ideia de que as pessoas com problemas mentais ou emocionais precisassem ser tratadas e, menos ainda, internadas.  Os supostos loucos conviviam normalmente com a comunidade, e os grandes excluídos eram os chamados “leprosos” (que nem necessariamente eram portadores da hanseníase, mas de qualquer doença similar): estes, sim, eram vítimas de grande preconceito e, sempre que possível, eram confinados em leprosários.  Com o tempo, o número de pacientes foi diminuindo e esses prédios foram ficando vazios no final do Século XV.  Era preciso enchê-los novamente, e os primeiros a serem internados foram os portadores de doenças venéreas – que, juntamente com suas doenças, carregavam o peso de toda uma repreensão moral.  O tratamento era uma consideração secundária: o principal era retirar essas pessoas do convívio social.  Mais adiante, os ditos “loucos” foram os novos ocupantes dessas instituições.  Não havia tratamento, pois nem se pensava nisso: a ideia era simplesmente tirá-los de circulação – e foi o que ocorreu.  No Século XVII, em Paris, mais de 1% da população já tinha sido internada.  A chamada “loucura”, que antes era vista como um fenômeno absolutamente corriqueiro, passou a ser encarada como uma ameaça à ordem; os loucos tinham que ser detidos e contidos.  As primeiras tentativas de lidar com eles envolviam, basicamente, a contenção.  Foi a partir do trabalho do médico Philippe Pinel (1745-1826) que a situação começou a mudar: os internos começaram a ser efetivamente vistos como pacientes que precisavam ser compreendidos e tratados.  Uma grande inovação em termos terapêuticos surgiu fora do campo da psiquiatria, com o neurologista Sigmund Freud (1856-1939), criador da psicanálise, que observou o poder terapêutico da palavra e propôs uma forma de tratamento onde o paciente podia falar sobre si mesmo.  Ainda assim, por algum tempo, a instituição hospitalar psiquiátrica teve um viés repressivo, e servia bem ao propósito de confinar pessoas consideradas inconvenientes. O grande autor Lima Barreto(1881-1922), por exemplo, foi internado por sua compulsão ao alcoolismo, e narrou sua triste experiência em Diário do Hospício.  No cinema, no teatro e na literatura, era comum o recurso de enviar um personagem para um hospital psiquiátrico – geralmente, o vilão da história.

Hoje, isso vem se atenuando graças ao maior nível de esclarecimento e à chamada Reforma Psiquiátrica, que humanizou e modernizou as formas de tratamento, mas é preciso abandonar de uma vez por todas o velho preconceito que ainda persiste.  Quem precisa de ajuda merece ser ajudado e respeitado – sempre.

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crédito foto: lounge.obviousmag.org

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