A FACA, QUE DEVERIA SERVIR PARA PREPARAR O FALAEL, HOJE MATA

Quem em Israel, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, não perdeu um familiar ou um amigo próximo no interminável conflito entre judeus israelenses e palestinos? Estes raros felizardos podem ser contados nos dedos, provavelmente de uma única mão. Talvez nem isso. Lá se vão quase setenta anos que os dois povos se digladiam, intermeados de alguns poucos momentos de relativa calma. Neste período, a esperança revezou com o ódio e a violência, insuflados por uns e outros.

Aconteceram guerras, atentados e intifadas (revolta, em árabe). Mas também o interregno dos acordos de Oslo, ratificados em Camp David e imortalizados no aperto de mãos do sorridente Arafat e do enojado Rabin. Houveram iniciativas individuais de aproximação. Alguns maestros humanistas, como Lorin Maazel e Daniel Barenboim, reuniram músicos palestinos e israelenses em uma orquestra, de cujos instrumentos saíram notas com som de paz. Houve a expectativa de dois Estados, lado a lado. Mas isso pertence ao passado. Hoje o que se vê é um misto de ira, fel, ojeriza, indignação e sobretudo desesperança. Um coquetel explosivo. A região vive sob o clima do medo. Os israelenses temem que o inimigo possa estar escondido na esquina, incógnito. A faca, que deveria servir para preparar o falafel, uma receita comum, hoje mata.

Analistas aventam a possibilidade de uma nova guerra de independência. No entanto, o que se vê, é uma sucessão de atos de desespero, individuais, desorganizados. Os palestinos não formam um exército e os árabes não estão dispostos a mexer uma palha por eles. Fruto do medo comum, totalmente compreensível, os palestinos estão perdendo seus empregos em Israel. E assim sendo, são ejetados para os territórios, do outro lado do muro. Os israelenses preferem contratar os refugiados, sobretudo eritreus.

Na Faixa de Gaza, devastada, bloqueada por Israel e Egito, o desemprego supera os 60% e a única atividade ainda rentável é o contrabando. Na Cisjordânia ocupada a taxa era de 18%, mas com a demissão dos palestinos que trabalham em Israel a porcentagem tende a crescer. No total, um quarto dos palestinos vive em situação de miséria absoluta. E só 35% da ajuda internacional prometida foi entregue.

No entanto, o Hamas, em Gaza, continua a defender a destruição do Estado hebreu e, de tempos em tempos, a lançar seus foguetes, com o único objetivo de instigar uma resposta violenta, uma ação israelense.

Os palestinos são movidos pela certeza, inscrita na história, de que um dia, talvez distante mas que chegará sem dúvida, a colonização de suas terras pelos judeus cessará. Assim como desapareceram as colônias francesa, inglesa, belga, holandesa. Para eles, a presença dos judeus na Palestina é apenas um resquicio incongruente do colonialismo. Por isso, mais dia menos dia, os judeus deixarão aquela terra. Seria apenas questão de tempo.

Do lado israelense, Benjamin Netanyahu se desvencilhou das amarras que faziam com que ele conservasse um mínimo, uma pitada que fosse, de sabedoria. Ao responsabilizar o então mufti de Jerusalém por ter dado a Hitler a ideia do holocausto, não apenas provocou de maneira insana até os palestinos mais moderados, como feriu todos os judeus de dentro e de fora de Israel. Teve de ouvir, da boca de Angela Merkel, o óbvio: – A responsabilidade pela shoa é nossa, dos alemães. O objetivo único e indecente de Bibi foi colocar mais lenha na fogueira. Desnecessario, o fogo já se propagou. E pelo jeito ele foi o único a não ter se dado conta. O que Netanyahu quer, entrar com tanques em Ramala? Ocupar Al Aqsa? Ainda bem que os israelenses são um pouco mais sábios que seu 1° ministro.

Afinal, a urgência hoje é acalmar os ânimos e acreditar que “le pire n’est jamais sûr.

 

wall1

MURO 

A construção desse muro iniciou-se em 2002 e ainda se encontra em fase de execução. Seu objetivo é isolar os povos islâmicos da Cisjordânia do território judeu sob a alegação de que, assim, evitar-se-ia a proliferação de atentados terroristas. A perspectiva é de que, ao final, o muro da Cisjordânia tenha pouco menos de 800 km.

O Muro de Israel – também chamado de Muro da Cisjordânia – é um dos mais polêmicos muros da atualidade, pois se estabelece em torno da área onde se encontram os territórios dos povos palestinos, que perderam parte de suas áreas após a instauração do Estado de Israel pela ONU em 1947 e os desdobramentos posteriores a esse episódio histórico.

 

 

 

Correspondente em Paris há 35 anos, Milton Blay, autor do livro “Direto de Paris, Coq au Vin com Feijoada” pode ser ouvido em boletins diários na BandNews TV e nas rádios BandNews FM, Bandeirantes AM.

milton1