A COLUNA DE MILTON BLAY MOSTRA COMO O BRASIL PODE SE TORNAR UM GIGANTE DIPLOMÁTICO

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Direto de Paris

Em meio à crise migratória, com destaque para a atitude fascista das autoridades húngaras; à faxina na Fifa, que varreu o ‘homem do pé na bunda’; à ameaça de Trump chegar à Casa Branca; aos pacotes fiscais, propostos por aqueles que sempre consideraram austeridade uma abominação; ao olhar caolho dos que veem golpe por todo o canto, com o único objetivo de salvar a própria pele (e o povo que se lixe), a viagem do ministro Mauro Vieira ao Líbano só podia passar batida, como passou. E no entanto, na melhor tradição “dilmista”, o chanceler soltou uma besteira monumental. Na mesma linha de sua patroa, o experiente diplomata foi para Beirute comentar a situação na vizinha Síria e seus mais de 250 mil mortos.

O que foi que ele disse? Que não se pode pôr fim ao conflito na Síria “pela força”.

A declaração vem no momento em que as potências se agitam: EUA acusam a Rússia de preparar uma base aérea para operações militares na Síria, e a coalizão liderada pelos americanos segue sua ofensiva contra o Estado Islâmico, agora com apoio da França.

Se a posição brasileira parasse aí, tudo bem, seria apenas um voto ingênuo. Mas o representante brasileiro foi além, ao comentar: “Não se pode pôr fim à crise síria pela força, mas por um diálogo que garanta uma representação justa dos componentes da sociedade [síria]”. O ministro expressou sua repulsa ao terrorismo, assinalando que o país “apoia as negociações pacíficas”.

Tirando o eufemismo das “negociações pacíficas”, Mauro Vieira mantém a posição do Brasil, de resolução do conflito pela via diplomática. O que ele se nega a dizer é quais são os “componentes da sociedade síria” que deveriam fazer parte do diálogo defendido pelo Brasil.

Ora, a lógica Aristotélico-tomista nos leva a acreditar que os negociadores seriam representantes daqueles que fazem a guerra: o ditador Bachar el-Assad, o Estado Islâmico, a Al Qaeda, a Frente Revolucionária da Síria, considerada “moderada” porém hoje quase totalmente aniquilada, as dezenas de grupelhos que combatem uns aos outros.

Alguém, em sã consciência, acredita ser possível juntar esse pessoal em torno de uma mesa para falar de paz? Alguém, com exceção da presidente do Brasil e de seu ministro?

Vocês se lembram, sem dúvida, da declaração de Dilma Rousseff durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro passado. Na ocasião, ela disse que bombardear o EI “não resolve o problema”, e defendeu “o diálogo”.

A declaração correu o mundo e nos envergonhou. O discurso de Mauro Vieira só não fez o mesmo efeito por causa dos gravíssimos acontecimentos do momento. E porque o Brasil virou sinônimo de crise, corrupção e piada.

Na época, muita gente nas redes sociais convidou Dilma a ir à Siria para conversar com os islmaitas. Agora, ela pode ir na boa companhia do chanceler.

Se resolverem a questão, sem serem degolados, o Brasil passará a ter o status de gigante diplomático e merecerá, sem sombra de dúvida, o tão cobiçado assento no Conselho de Segurança da ONU.

Correspondente em Paris há 35 anos, Milton Blay, autor do livro “Direto de Paris, Coq au Vin com Feijoada” pode ser ouvido em participações diárias nas rádios BandNews FM, Bandeirantes AM e BandNews TV.

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