A CANETA É MAIS PERIGOSA QUE O FUZIL!

A violência assombra nosso país e isso não é novidade. A velocidade de circulação da informação, todavia, contribui para que casos outrora isolados a determinados locais sejam de conhecimento amplo, conferindo sensação de insegurança.

Em reboque dessa opressão por nós vivida, na qual a cada dia estamos mais aprisionados em casa sob a falsa perspectiva de segurança e, paradoxalmente, os bandidos circulam nas ruas com maior liberdade, o clamor pelo endurecimento das penas e da redução da maioridade ganha eco a cada dia mais retumbante. Esse barulho atingiu nossos parlamentares, que se mexem para atender os anseios da sociedade cujos interesses deveriam defender, muito embora pareça que a maioria lá está para defender seus interesses particulares.

Enquanto passionais debates são desenvolvidos sobre os reflexos das medidas propostas, a violência aumenta aos olhos e sob a percepção da população. Mas somada à opressão do fuzil, comum nas grandes cidades, está a opressão da caneta.

Casos e mais casos de corrupção são noticiados diuturnamente e envolvem o setor público do país, em todas suas camadas e esferas. Ao contrário de enxergar como um grande problema, entendo como salutar as denúncias e, acima de tudo, as punições. Afinal de contas a corrupção sempre foi realidade em nosso país e ao longo da República são reiteradas as suspeitas que vigem de governo a governo. Com os militares no poder, as acusações calaram. Nada mais natural, pois quem apontasse um milico como corrupto poderia acabar é preso por subversivo! Mas o retorno à estabilidade democrática – que alguns grupos deliberadamente tentam arruinar – está permitindo que as instituições se fortaleçam e, com isso, aumentem o aparato de fiscalização. Resultado prático: casos e mais casos de corrupção descobertos. Uma luz no final do túnel!

Porém, não há clamor social pelo endurecimento das penas daqueles que usam a caneta para cometer seus crimes. Há opiniões político-partidárias e com o cunho casuístico. O combate à corrupção deveria ser projeto de país e não a favor ou contra determinado grupo político.

Certamente quem desvia dinheiro público causa prejuízo a um número maior de pessoas do que quem rouba um carro ou um celular. O criminoso cuja arma é a caneta está fora do perfil dos 3 pês para o qual a prisão em nosso país existe. Tem boa educação, informação, bons antecedentes e influência. Ele é branco, muitos desses canceres são nascidos em berço de ouro. Daí nasce o choque de grande parcela da sociedade quando alguns deles vão para trás das grades, mesmo sabendo que o cárcere será transitório e muito rápido, pois a previsão branda das penas implica, nas hipóteses de condenação, regimes igualmente amenos.

Esse perfil privilegiado do criminoso da caneta é entendido como causador de pouco risco à sociedade! Mas é justamente o inverso! São os mais perigosos! E os recentes escândalos mostram isso. Muitos dos que figuraram ou figuram nos escândalos em voga (Petrobrás, Mensalão do PT, Metrolão, Mensalão Tucano) tiveram seus nomes vinculados as acusações pretéritas e contendo a mesma gama de crimes envolvendo o dinheiro público, com negociatas e crimes correlatos.

Os reflexos nefastos desses criminosos “classe A” geram o aumento dos crimes para os quais pedimos maiores punição, pois privam à sociedade, em especial os menos favorecidos, de acesso aos serviços básicos e essenciais, inclusive, para a esperança de escalada social. Mas os privados dos serviços públicos do passado e meliantes do presente se enquadram no conceito de criminoso vigente em nossa sociedade e, portanto, a eles a cadeia é natural.

Preto, pobre e puta – os 3 pês do nosso contingente penitenciário – não são os que representam os maiores riscos à nossa sociedade, embora a guerra de pobre x pobre, representada pela polícia x bandido nos seja colocada como o grande mal a ser enfrentado. Essa guerra é fomentada e é efeito colateral dos desvios de recursos públicos e ausência de oportunidades dos crimes praticados pelos bacanas.

Não se clama nenhuma guerra social. Mas está na hora da democracia ser implementada de verdade, com a punição mais severa para os que causam maiores riscos à sociedade. Por que não democratizar também o espaço penitenciário, com um espacinho para o criminosa “Classe A”? A caneta tem feito maiores estragos que o fuzil.

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